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por Metropolita Filareto (Voznesensky) de Nova Iorque
Tradução de Rafael Resende Daher

2 de
Dezembro de 1965
Vossa Santidade,
Nós herdamos dos Santos Padres um legado de que tudo na Igreja deve ser
feito de uma maneira legal, unânime e de acordo com a antiga Tradição.
Se qualquer um dos bispos e até mesmo o primaz de uma Igreja Autocéfala
faz algo que não está de acordo com o ensinamento de toda a Igreja,
qualquer membro da Igreja tem o direito de protestar contra ele. O 15º
Cânon do Primeiro e Segundo Concílio de Constantinopla de 861 descreve
como "merecedor de desfrutar a honra entre os cristãos Ortodoxos,
os bispos e clérigos que se separam até mesmo da comunhão de seu
patriarca, se este torna pública uma heresia, e a ensina abertamente na
Igreja". Assim, todos nós somos guardiões da verdade da Igreja,
que sempre foi protegida pelo zelo de que nada de importante pode ser
decidido sem o consentimento de todos.
Desta maneira, nossa atitude em relação aos vários cismas ocorridos fora
dos limites das igrejas autocéfalas particulares, foi a de nunca
determinar nada sem o consentimento comum de todas as igrejas.
No princípio, nossa separação de Roma foi declarada apenas em
Constantinopla, e tornou-se mais tarde um assunto preocupante em todo
mundo Ortodoxo. Nenhuma das igrejas autocéfalas, e especificamente a
altamente estimada Igreja de Constantinopla, da qual nossa Igreja Russa
recebeu o tesouro da Ortodoxia, mudou qualquer coisa sobre assunto sem o
consentimento geral de todos. Além de que, nós, os bispos que governam
no momento, não podemos tomar decisões em relação ao Ocidente que
discordem dos ensinamentos dos Santos Padres que viveram antes de nós,
especialmente São Fócio de Constantinopla e São Marcos de Éfeso.
Na luz
destes princípios, embora sendo o mais jovem primaz, líder da parte
autônoma da Igreja da Rússia, consideramos que é nosso dever declarar um
protesto categórico contra a ação de Vossa Santidade; contra sua
declaração solene e simultânea com o Papa de Roma em relação à remoção
da sentença de excomunhão feita pelo Patriarca Miguel Celulário em 1054.
Ouvimos muitas expressões de perplexidade quando Vossa Santidade, diante
do mundo inteiro, executou algo novo e incomum a seus antecessores, como
também incompatível com o 10º Cânone Apostólico, durante sua reunião com
o Papa de Roma, Paulo VI, em Jerusalém. Ouvimos dizer que após este
ocorrido, muitos monastérios do Santo Monte Athos se recusaram a
mencionar seu nome nos serviços religiosos. Deixe-nos dizer francamente,
a confusão era grande. Mas agora Vossa Santidade foi além, com sua
própria decisão conjunta com os bispos de seu Sínodo, utilizando somente
sua decisão com a dos bispos de seu sínodo para cancelar a decisão do
Patriarca Miguel Celulário, aceita por todo o Oriente Ortodoxo. Neste
caminho, Vossa Santidade está agindo contra a atitude acordada por toda
a nossa Igreja em relação ao Catolicismo Romano. Não é apenas uma
avaliação sobre o comportamento do Cardeal Humberto. Não é apenas uma
controversa pessoal entre o Papa e o Patriarca que pode ser curada
facilmente pelo mútuo perdão Cristão; não; a essência deste problema
está na divergência arraigada entre a Ortodoxia e a Igreja Romana
durante os séculos, que começou com a doutrina sobre a infalibilidade do
Papa formulada definitivamente no Concílio Vaticano I. A declaração de
Vossa Santidade em conjunto com o Papa reconhece um gesto de "perdão
mútuo" insuficiente para colocar um fim nas diferenças antigas e
recentes. Além de que, seu gesto coloca um sinal de igualdade entre o
erro e a verdade. Durante séculos a Igreja Ortodoxa acreditou com razão
de que nunca violou a doutrina dos Santos Concílios Ecumênicos,
afirmando que a Igreja Romana introduziu inovações em seu ensinamento
dogmático.
Quanto
mais inovações eram introduzidas, maior ficava a separação entre Oriente
e Ocidente. As divergências doutrinais de Roma no décimo primeiro século
ainda não continham os erros que foram adicionados depois. Então, o
cancelamento da excomunhão mútua em 1054 poderia ter sido significativo
naquela época, mas hoje evidencia apenas a indiferença em relação aos
maiores erros, isto é, as novas doutrinas estranhas à antiga Igreja, que
foram expostas por São Marcos de Éfeso, razão pela qual a Igreja
rejeitou a União de Florença.
Nós declaramos com firmeza e categoricamente:
Nenhuma união da Igreja Romana conosco é possível sem que Roma renuncie
todas suas doutrinas inovadoras, e nenhuma oração em comunhão pode ser
restaurada sem a decisão de todas as igrejas, porém, isto não é possível
antes da libertação da Igreja Russa, que no momento, vive nas
catacumbas. A hierarquia que está sob a autoridade do Patriarca Aleixo
não pode expressar a verdadeira voz da Igreja Russa, pois está sob sob
um governo irreligioso. Primazes de outras igrejas em países sob domínio
comunista também não são livres.
Considerando que o Vaticano não é apenas um centro religioso, mas também
um estado, e considerando que estas relações também são de natureza
política, como fica ainda mais evidente na visita do papa às Nações
Unidas, devemos pensar na possibilidade da influência de algumas
autoridades irreligiosas nos assuntos da Igreja Romana. A história é
testemunha, de que as negociações com heterodoxos sob pressão de fatores
políticos nunca trouxe nada mais do que confusões e heresias.
Então,
achamos necessário declarar que nossa Igreja Ortodoxa Russa fora da
Rússia, e certamente, a Igreja Russa que neste momento está nas
catacumbas, não consentirá com qualquer diálogo com outras confissões e
que também rejeita qualquer compromisso feito com elas, acreditando que
a união com elas só é possível com a aceitação da Fé Ortodoxa mantida
até hoje, na Igreja Santa, Católica e Apostólica. Enquanto isso não
ocorre, a excomunhão declarada pelo Patriarca Miguel Celulário ainda é
válida, e a retirada feita por Vossa Santidade é um ato ilegal e nulo.
Certamente não fazemos oposições às relações generosas com
representantes de outras confissões, contanto que a verdade da Ortodoxia
não seja traída. Portanto, nossa Igreja aceita o convite em seu devido
tempo para enviar seus observadores ao Concílio Vaticano II, assim como
o envio de observadores ao Conselho Mundial de Igrejas, para que
tenhamos informações em primeira mão dos trabalhos destas assembléias,
sem participar de suas deliberações.
Nós amamos a recepção gentil dada aos nossos observadores, e estudamos
com interesse a exibição de seus relatórios sobre as mudanças que estão
sendo introduzidas na Igreja Romana. Nós agradeceremos a Deus se estas
mudanças servirem para trazê-la à Ortodoxia. Porém, Roma deve mudar
muito para voltar à "profissão de Fé dos Apóstolos", ao contrário da
Igreja Ortodoxa, que mantém esta fé impecável e não deve mudar nada.
A Tradição da Igreja e o exemplo dos Santos Padres nos ensinam que a
Igreja não pode possuir nenhum acordo ou diálogo com os que se separaram
da Ortodoxia. A Igreja deve, de preferência, convidá-los a um monólogo
para a rejeição de suas doutrinas dissidentes.
Um
verdadeiro diálogo implica em uma troca de visões com a possibilidade de
persuadir os participantes até um acordo. Como podemos perceber na
Encíclica "Ecclesiam Suam", o Papa Paulo VI entende o diálogo como um
plano para nossa união com Roma, mas de uma maneira que mantenha a
doutrina romana inalterada, e particularmente, a doutrina dogmática
sobre a posição do Papa na Igreja. Porém, qualquer acordo com o erro é
estranho à história da Igreja Ortodoxa e à essência da Igreja. Não pode
haver harmonia entre confissões de Fé, mas apenas uma unidade externa
ilusória, semelhante à conciliação das comunidades protestantes
dissidentes no movimento ecumênico.
Que tal traição à Ortodoxia não ocorra entre nós.
Pedimos sinceramente que Vossa Santidade termine esta confusão, pois o
caminho que o senhor escolheu seguir, mesmo que traga uma união com os
católicos romanos, provocará um cisma no mundo Ortodoxo. Certamente
muitos de seus filhos espirituais irão preferir a unidade com a
Ortodoxia ao invés de uma união obtida através de um acordo com
heterodoxos, sem harmonia completa com a verdade.
Pedindo as vossas orações, sou servo humilde de Vossa Santidade,
+ Metropolita Filareto
Presidente do Sínodo de Bispos da Igreja Ortodoxa Russa Fora da
Rússia.
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