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A RENOVAÇÃO CARISMÁTICA COMO UM SINAL DOS TEMPOS

PARTE I
 

Por Abençoado Hieromonge Serafim Rose

Tradução Rafael Resende Daher e Ricardo Williams G. Santos
 

Parte I - Parte II

 

Pe. Serafim Rose

 

Nota: Pe. Serafim Rose (1934-1982) foi um monge ortodoxo da antiga tradição que dedicou sua vida a reviver as verdades espirituais que o homem moderno ocidental esqueceu. Em sua cabana isolada nas montanhas do norte da Califórnia ele escreveu diversas obras publicadas em todo o mundo. Hoje ele é o mais popular autor de livros sobre espiritualidade na Rússia. Seus livros Orthodoxy and the Religion of the Future (Ortodoxia e a Religião do Futuro) e The soul after death (A Alma depois da Morte, ambos sem tradução para o português) mudaram inúmeras vidas com a mensagem de uma verdade firme e sóbria. Desde que ele escreveu este artigo, na década de 1970, o movimento carismático cresceu com grande velocidade, indo muito além do que acontecia naquela época, e originando tais coisas como a Toronto Blessing (“Bênçãos de Toronto,” ou “movimento das risadas sagradas”). Este artigo é sobre o movimento em si, e não uma condenação das pessoas que participam dele.

“COSTA DEIR pegou o microfone e contou-nos que seu coração estava aflito pela Igreja Ortodoxa Grega. Ele pediu para que o Padre Driscoll da igreja episcopal orasse para que o Espírito Santo tocasse aquela Igreja da mesma maneira que Ele estava tocando a Igreja Católica. Enquanto o padre Driscoll orava, Costa Deir chorou ao microfone. Após a oração houve uma longa mensagem em línguas e uma interpretação igualmente longa, dizendo que suas preces foram ouvidas e que o Espírito Santo sopraria e renovaria a Igreja Ortodoxa Grega. Naquela hora houve tanto choro e gritos que eu voltei de lá totalmente emocionado. Ainda me ouvi falando uma coisa surpreendente: ‘Algum dia quando nós lermos como o Espírito Santo está mudando a Igreja Ortodoxa Grega, lembraremos que nós estávamos aqui quando isto começou’.” [1]
Seis meses depois da ocorrência do acontecimento aqui descrito em um encontro de diferentes denominações “carismáticas” em Seattle, cristãos Ortodoxos começaram a ouvir que o “espírito carismático” estava tocando a Igreja Ortodoxa Grega. No início de Janeiro de 1972, o Logos do pe. Eusebius Stephanou começou a relatar este movimento, que começara anteriormente em várias paróquias gregas e antioquinas nos EUA e que agora se espalhara para muitas outras, sendo entusiasticamente promovida pelo pe. Eusebius.
Depois que você, leitor, tiver lido a descrição deste “espírito” através das palavras de seus principais representantes nas páginas seguintes, não será difícil crer que a tentativa de incitar e infundir tal movimento no mundo Ortodoxo é proveniente das súplicas urgentes de várias “denominações cristãs.” Pois se uma conclusão emerge desta descrição, é certamente a de que a espetacular “renovação carismática” dos dias atuais não é apenas um fenômeno que envolve excesso de emocionalismo e revitalização protestante — embora esses elementos estejam também fortemente presentes — mas é o trabalho de um “espírito” que pode-se invocar para operar “milagres.” A questão que tentaremos responder nestas páginas é: quem ou o que é este espírito? Como cristãos Ortodoxos nós sabemos que não é apenas Deus que opera milagres — o demônio tem seus próprios “milagres,” e de fato ele pode e imita virtualmente todo milagre genuíno de Deus. Nós, consequentemente, tentaremos nestas páginas sermos cuidadosos em “tentar os espíritos, se eles não são de Deus” (1 João 4:1). Nós começaremos com um breve estudo histórico, já que não se pode negar que a “Renovação Carismática” chegou ao Mundo Ortodoxo através de denominações protestantes e católicas que, por sua vez, a receberam das seitas Pentecostais.
 

O Movimento Pentecostal

O movimento Pentecostal contemporâneo, embora tenha antecedentes no século XIX, originou-se precisamente às 19:00 horas da véspera do Ano Novo do ano de 1900. Antes dessa data, Charles Parham — um pastor metodista de Topeka, Kansas — buscando uma solução para a visível debilidade de seu ministério cristão, vinha estudando com afinco o Novo Testamento com um grupo de estudos que buscava descobrir o segredo do poder do cristianismo apostólico.
O grupo finalmente deduziu que este segredo jazia no “falar em línguas” que, segundo eles, sempre acompanhava a recepção do Espírito Santo nos Atos dos Apóstolos. Com grande emoção e tensão, Parham e seus estudantes resolveram rezar até que eles mesmos recebessem o “Batismo do Espírito Santo” em conjunto com o dom de falar em línguas. No dia 31 de Dezembro de 1900 eles rezaram de manhã até a noite sem nenhum sucesso, até que uma moça sugeriu que estava faltando um ingrediente neste experimento: “a imposição das mãos.” Parham pôs suas mãos na cabeça da moça e imediatamente ela começou a falar numa “língua desconhecida.” Em três dias ocorreram muitos “Batismos,” incluindo o do próprio Parham e mais doze ministros de várias denominações, e todos eles acompanhados do dom de falar em línguas. Logo a renovação se expandiu para o Texas, e foi então um sucesso espetacular em uma pequena Igreja da comunidade negra de Los Angeles. Desde então, ele vem se disseminando por todos os cantos do mundo e possui atualmente dez milhões de membros.
Por meio século o Movimento Pentecostal permaneceu sectário e foi recebido com hostilidade pelas denominações tradicionais em todos os lugares. No entanto, o dom falar em línguas começou gradualmente a aparecer nessas mesmas denominações, apesar de inicialmente ter pouca divulgação, até que em 1960 um ministro de uma igreja episcopal perto de Los Angeles fez uma grande divulgação do movimento ao declarar publicamente que ele havia recebido o “Batismo do Espírito Santo” e o dom de falar em línguas. Após certa rejeição inicial, a “renovação carismática” ganhou a aprovação não oficial das maiores denominações e se expandiu rapidamente nos EUA e no exterior. Mesmo a rígida e exclusivista Igreja Católica Romana, após acolher a “renovação carismática” no final da década de 1960, foi entusiasticamente tomada por este movimento. Nos EUA, os bispos católicos romanos deram sua aprovação ao movimento em 1969, e alguns poucos milhares de católicos envolvidos neste movimento cresceram desde então centenas de milhares, os quais se congregam periodicamente em conferências “carismáticas” nacionais cujo o número de participantes chega a dezenas de milhares. Os países católicos romanos da Europa também se tornaram entusiasticamente “carismáticos,” como nos mostram as conferências “carismáticas” do verão de 1978, na Irlanda, das quais participaram milhares de padres irlandeses. Um pouco antes de sua morte, o papa Paulo VI se encontrou com uma delegação de “carismáticos” e proclamou que ele também era um pentecostal.
Qual a razão para o sucesso espetacular de uma renovação “cristã” em um mundo aparentemente “pós-cristão”? Sem dúvida a resposta encontra-se em dois fatores: primeiro, o panorama receptivo formado por milhões de “cristãos” que sentem que sua religião está seca, excessivamente racional, meramente externa, sem fervor ou poder; e em segundo lugar, o “espírito” evidentemente poderoso que está por trás deste fenômeno, que é capaz, sob condições propícias, de produzir inúmeros fenômenos “carismáticos” diferentes, incluindo curas, falar em línguas, interpretações, profecias, e subjacente a todos estes aspectos, uma experiência arrebatadora que é chamada de “Batismo do Espírito Santo”
Mas o que é exatamente este “espírito”? Significativamente, esta questão raramente é feita pelos seguidores da “renovação carismática”; sua própria — e tão poderosa — experiência “batismal” é precedida por uma eficiente preparação psicológica na forma de orações, concentração e expectativa que nunca houve qualquer dúvida em suas mentes que eles receberam mesmo o Espírito Santo e que o fenômeno que eles experimentaram e viram são exatamente aqueles descritos nos Atos dos Apóstolos. Além disso, a atmosfera psicológica do movimento é freqüentemente tão unilateral e tensa que se considera uma blasfêmia contra o Espírito Santo propor qualquer dúvida nesta questão. Das centenas de livros que já apareceram no movimento, apenas uns poucos expressam dúvidas sobre sua validade espiritual.
Para compreender melhor essa característica peculiar da “renovação carismática,” examinaremos alguns testemunhos e práticas de seus participantes, sempre verificando-os com relação aos padrões da Santa Ortodoxia. Estes testemunhos serão extraídos, salvo raras exceções, dos livros apologéticos e revistas do movimento, escritos por pessoas que lhe são favoráveis e que obviamente publicam somente o material que parece dar embasamento à sua posição. Além disso, faremos apenas um uso minimalista das fontes Pentecostais, restringindo-nos principalmente aos participantes protestantes, católicos e ortodoxos na “renovação carismática” contemporânea.
 

O Espírito “ecumênico” da “Renovação Carismática”

ANTES DE CITAR as testemunhas carismáticas, devemos considerar as características principais do Movimento Pentecostal original, que raramente é mencionado pelos escritores “carismáticos,” visto que o número e variedade de seitas pentecostais é surpreendente, cada um com sua própria ênfase doutrinária, e muitos deles não mantém sequer uma boa relação uns com os outros. Há vários deles, como a “Assembléia de Deus,” “Igrejas de Deus,” o corpo “Pentecostal” e “Santo,” os grupos “Evangélicos,” etc., e muitos estão divididos em pequenas seitas. A primeira coisa a se dizer acerca do “espírito” que inspira tal anarquia é que certamente não é um espírito de unidade, e isto é um visível contraste com relação à Igreja Apostólica dos primeiros séculos, a qual o movimento professa um retorno. Entretanto há muito debate, especialmente na “renovação carismática” das denominações das décadas passadas, da “unidade” que ele inspira. Mas que tipo de unidade é essa? A verdadeira Unidade da Igreja que os Cristãos Ortodoxos dos séculos I ao XX conhecem, ou a pseudo-unidade do Movimento Ecumênico que nega a existência da Igreja de Cristo?
Esta questão foi respondida de modo bem claro por aquele que talvez seja o principal “profeta” pentecostal do século XX, David du Plessis, que nos últimos vinte anos vem trabalhando ativamente para disseminar o “Batismo do Espírito Santo” entre as denominações do Concílio Mundial das Igrejas (WCC), em resposta a uma “voz” que lhe mandou agir em 1951. “A renovação pentecostal nas igrejas está ganhando força e velocidade. A característica mais notável é que a renovação está presente no que chamamos de ‘sociedades liberais’, mas é praticamente inexistente entre os protestantes evangélicos ou fundamentalistas — esse último grupo, inclusive, hoje é um dos mais ferrenhos oponentes desta renovação gloriosa, pois é no Movimento Pentecostal e nos movimentos modernos do Conselho Mundial que encontramos as manifestações mais poderosas do Espírito.” (Du Plessis, p. 28 [2]).
Da mesma forma, uma “renovação carismática” semelhante vem ocorrendo na Igreja Católica Romana, principalmente nas esferas liberais, e um de seus efeitos tem sido incentivar mais seu ecumenismo e inovações litúrgicas, como as “missas com violões,” por exemplo; por outro lado, católicos tradicionalistas se opõe a esse movimento tanto quanto protestantes fundamentalistas. Sem sombra de dúvida a orientação da “renovação carismática” é fortemente ecumênica. Um pastor luterano “carismático,” Clarense Finsaas, afirma que: “Muitos estão surpresos que o Espírito Santo também possa se manifestar nas várias tradições da Igreja Histórica... se a doutrina da igreja tem como base o calvinismo ou o arminianismo, estas questões tornam-se irrelevantes, provando que Deus é maior do que nossos credos e que nenhuma denominação tem o monopólio sobre Ele” (Christenson, p. 99). Um pastor episcopal, falando da “renovação carismática,” diz que “de modo ecumênico, a renovação está trazendo uma incrível união de cristãos de diferentes tradições, essencialmente em nível local” (Harper, p. 17). O jornal “carismático” da Califórnia Inter-Church Renewal (“Renovação entre igrejas”) está cheio de demonstrações de “unidade” como esta: “A era das Trevas foi desterrada e hoje uma freira católica e um protestante podem amar um ao outro com um novo tipo de amor fora do comum” o qual prova que “as velhas barreiras denominais estão se desintegrando. Diferenças doutrinárias superficiais são postas de lado para que todos os crentes formem uma unidade no Espírito Santo.” O padre ortodoxo Eusebius Stephanou acredita que esta “efusão do Espírito Santo está transcendendo as linhas denominais. O espírito de Deus está movendo... dentro e fora da Igreja Ortodoxa.” (Logos, janeiro de 1972, p. 12).
Nisso, o Cristão Ortodoxo que está atento para “tentar os espíritos” encontra-se em terreno familiar, cheio de clichês ecumênicos comuns. E acima de tudo notemos que esta nova “efusão do Espírito Santo,” assim como o Movimento Ecumênico em si, nasceu fora da Igreja Ortodoxa; aquelas poucas paróquias ortodoxas que agora estão seguindo este movimento, estão obviamente seguindo apenas uma moda que desenvolveu-se completamente fora dos fundamentos da Igreja de Cristo.
Mas o que é que aqueles que estão fora da Igreja de Cristo podem ensinar aos Cristãos Ortodoxos? Certamente é verdade — e nenhuma pessoa ortodoxa consciente negaria isso — que os Cristãos Ortodoxos às vezes ficam envergonhados com o fervor e zelo de alguns católicos romanos e protestantes têm em relação à freqüência à igreja, atividades missionárias, grupos de oração, leitura da Escritura, etc. Os não Ortodoxos fervorosos podem envergonhar os Ortodoxos, mesmo no erro de suas crenças, quando eles fazem mais esforço para agradar a Deus do que muitas pessoas Ortodoxas que possuem a plenitude do cristianismo apostólico. Os Ortodoxos deveriam aprender com eles e acordar para a riqueza espiritual de sua própria Igreja, que muitas vezes deixam de notar por indolência espiritual ou maus hábitos. Tudo isso está relacionado ao lado humano da fé, ao esforço humano que pode ser despendido em atividades religiosas independente da fé.
O movimento “carismático,” entretanto, reivindica estar em contato com Deus, ter encontrado um meio de receber o Espírito Santo, a efusão da graça de Deus. E ainda é precisamente a Igreja, e nada mais, que Nosso Senhor Jesus Cristo estabeleceu como meio da transmissão da graça à humanidade. Devemos crer que a Igreja agora será substituída por uma “nova revelação” capaz de transmitir a graça fora da Igreja, entre qualquer grupo de pessoas que acreditam em Cristo, mas que não possuem nenhum conhecimento ou experiência dos Mistérios (Sacramentos) que Cristo instituiu e nenhum contato com os Apóstolos e seus sucessores, a quem Ele designou para administrar os Ministérios? Não! É tão seguro afirmar que, nos dias de hoje, assim como ocorreu nos primeiros séculos, os dons do Espírito Santo não são revelados para aqueles que estão fora da Igreja. O grande padre Ortodoxo do século XIX, o Bispo Teófano, o Recluso, escreve que o dom do Espírito Santo é dado “precisamente pelo sacramento da Crisma, que foi introduzido pelos apóstolos no lugar da imposição de mãos,” que é a forma de ministrar esse Sacramento descrita nos Atos dos Apóstolos. “Nós que fomos batizados e crismados temos o dom do Espírito Santo... mesmo que ainda não seja ativo em todos.” A Igreja Ortodoxa fornece o meio para ativar esse dom, e “não há outro caminho... sem o Sacramento da Crisma, ocorreria anteriormente sem a imposição das mãos dos Apóstolos, sem eles o Espírito Santo nunca descera e nunca desceria.” [3]
Em resumo, podemos descrever a orientação da “Renovação Carismática” como a orientação de um novo e mais profundo ecumenismo “espiritual” — cada Cristão “renovado” em sua própria tradição, mas ao mesmo tempo estranhamente unido pela mesma experiência com outros cristãos igualmente “renovados” em suas próprias tradições, todos dos quais contém vários graus de heresia e impiedade! Este relativismo conduz também à abertura para práticas religiosas completamente novas, como quando um padre Ortodoxo permitiu aos leigos que “impusessem as mãos” sobre ele em frente às portas reais de uma Igreja ortodoxa (Logos, abril de 1972, p. 9)
O objetivo final de tudo isto é a visão pan-ecumênica do “profeta” pentecostal, que afirma que muitos pentecostais “começaram a vislumbrar a possibilidade de que, com a aproximação do fim dos tempos, o movimento venha a se tornar a Igreja de Cristo. No entanto, essa situação mudou completamente durante os últimos dez anos. Muitos de meus irmãos agora estão convencidos de que o Senhor Jesus Cristo, líder da Igreja, enviará Seu Espírito sobre todos nós e que a igrejas históricas se reavivarão e serão renovadas, e nessa renovação, serão unidas pelo Espírito Santo” (Du Plessis, p. 33). Certamente não há espaço na “renovação carismática” para aqueles que crêem que a Igreja Ortodoxa é a Igreja de Cristo. Não é de se admirar que mesmo alguns “ortodoxos” pentecostais admitam que, no início, estavam “desconfiados da participação Ortodoxa” neste movimento (Logos, abril de 1972, p. 9)
Mas agora olharemos além das teorias ecumênicas e das práticas pentecostais para aquilo que realmente inspira e dá a força à “renovação carismática”: a experiência real do poder do “espírito”.

“Dom das Línguas”

Se analisarmos cuidadosamente os escritos da “renovação carismática,” veremos que esse movimento guarda muitas semelhanças com diversos movimentos sectários do passado, baseando-se de modo primário — ou mesmo integral — em práticas religiosas e ênfases em doutrinas bizarras. A única diferença é que a ênfase é outra, um ponto específico que nem os sectários no passado reconheceram como crucial: o “dom das línguas.”
Segundo a definição de várias seitas pentecostais, “A testemunha do batismo dos crentes no Espírito Santo é o sinal físico inicial do dom de falar em línguas” (Sherrill, p. 79). E o primeiro sinal de conversão para uma seita ou orientação pentecostal não é apenas esse — de acordo com as melhores autoridades pentecostais, esta prática tem de ser constante, ou pode-se perder o “Espírito.” David du Plessis afirma: “A prática de orar em línguas deve continuar a crescer na vida daqueles que são batizados no Espírito, de outro modo eles podem perceber que as outras manifestações do ‘Espírito’ tornam-se mais raras ou param completamente” (du Plessis, p. 89). Muitos testemunham, como fez um protestante, que as línguas “tornaram-se agora parte essencial da minha devoção” (Lillie, p. 50). Um livro católico romano que trata deste assunto, com mais cautela, diz que dos “dons do Espírito Santo” as línguas “freqüentemente, mas nem sempre, são os primeiros dons recebidos. Para muitos é uma barreira que devemos atravessar para obter o reino dos dons e frutos do Espírito Santo” (Ranaghan, p. 19).
Aqui já se pode notar uma ênfase que certamente não está presente no Novo Testamento, onde o dom das línguas teve um significado menor, servindo como um sinal da descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes (Atos 2) e em outras duas ocasiões (Atos 10 e 19). Depois do primeiro ou talvez do segundo século não há registro desse fenômeno em qualquer documento Ortodoxo, e não há relatos de sua ocorrência nem mesmo entre os grandes padres do deserto Egípcio que, dotados do Espírito de Deus, podiam realizar numerosos milagres surpreendentes, inclusive ressuscitar os mortos. Pode-se resumir a atitude Ortodoxa com relação ao genuíno falar em línguas, com as palavras de Santo Agostinho (Homilias sobre São João, VI:10): “Nos primeiros tempos O Espírito Santo desceu sobre aqueles que acreditaram, e eles falaram em línguas que não haviam aprendido, conforme o espírito lhes ensinava.” Estes sinais faziam parte daquela época, pois foi necessário que este sinal do Espírito Santo se manifestasse em todas as línguas mostrando que dever-se-ia proclamar o Evangelho de Deus aos quatro cantos da Terra. Foi um sinal que acabou. E como resposta aos pentecostais contemporâneos — e sua estranha ênfase nessa questão — Agostinho continua: “Espera-se agora que aqueles que recebem a imposição de mãos devem falar em línguas? Ou quando impusemos nossas mãos sobre as crianças, cada um de vocês esperou ver se elas falariam em línguas? E quando se vê que elas não falam em línguas, qualquer um de vocês foi tão perversos a ponto de dizer que não receberam o Espírito Santo?”
Os pentecostais contemporâneos, a fim justificar seu uso das línguas, citam a Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios (chs. 12-14). Mas são Paulo escreveu esta passagem precisamente porque as “línguas” tornaram-se uma fonte de desordem na Igreja de Coríntio, e embora ele não as proibisse, ele decididamente minimizou a sua importância. Portanto essa passagem, longe de encorajar qualquer movimento moderno de renovação do “dom das línguas,” deveria, pelo contrário, desencorajá-la — especialmente quando se descobre, como os próprios pentecostais admitem, que há outras fontes do dom das línguas além do Espírito Santo! Como Cristãos Ortodoxos nós já sabemos que o dom das línguas como um Verdadeiro dom do Espírito Santo não pode aparecer entre aqueles fora da Igreja de Cristo; mas uma análise mais atenta deste fenômeno moderno mostrará se ele possui características que podem revelar qual é sua origem.
Se a importância exacerbada dada ao “dom das línguas” pelos pentecostais contemporâneos já levantou suspeitas, devemos ter atenção absoluta ao examinar as circunstâncias em que ocorrem esses fenômenos.
Longe de ser um dom concedido de modo livre e espontâneo, sem a interferência do homem — como são os verdadeiros dons do Espírito Santo — pode-se estimular o dom das línguas de maneira previsível através de uma técnica regular de um grupo “de oração” concentrado, sempre acompanhado por hinos protestantes psicologicamente sugestivos (“Ele vem! Ele vem!”), culminando em uma “imposição de mãos,” e que as vezes envolve esforços puramente físicos, como a repetição contínua de uma determinada frase (Koch, p. 24), ou apenas com sons feitos com a boca. Uma pessoa admite que, como muitas outras, depois de falar em línguas: “Eu freqüentemente faço com a boca sons silábicos sem sentido no esforço de iniciar o fluxo da oração em línguas” (Sherril, p. 127); e tais esforços, ao invés de serem desencorajados, são estimulados pelos Pentecostais. “Fazer sons com a boca não é ‘falar em línguas’, mas pode significar um ato honesto de fé, que o Espírito Santo poderá honrar ao conceder àquela pessoa o poder de falar em outra língua” (Harper, p. 11). Outro pastor protestante diz: “Parece que a barreira inicial do falar em línguas é simplesmente perceber que você deve deixar as palavras ‘fluírem’... As primeiras sílabas e sons podem soar estranhas ao seu ouvido, elas podem ser balbuciantes e desarticuladas. Você pode ter o pensamento de que está apenas improvisando. Mas se você continuar a falar com fé... o Espírito formará a sua linguagem de oração e exaltação.” Um “teólogo” jesuíta conta-nos que ele pôs tal conselho em prática: “Depois do café da manhã senti-me quase que fisicamente impelido em ir à capela onde me sentei para rezar. Seguindo a descrição de Jim de sua própria recepção do dom das línguas, comecei a dizer silenciosamente para mim mesmo ‘lá, lá, lá, lá.’ Para minha imensa consternação houve em seguida um rápido movimento da língua e dos lábios, acompanhado por um tremendo sentimento de devoção interior.” (Gelpi, p. 1).
Pode qualquer cristão ortodoxo dotado de bom senso confundir estes perigosos jogos psíquicos com os dons do Espírito Santo? Está claro que de não há nada cristão nesse fenômeno, ou pelo menos nada que seja espiritual. Ao invés disso, trata-se de uma série de mecanismos psíquicos que podem ser ativados através de técnicas psicológicas ou físicas bem definidas — o “dom das línguas” ocuparia, então, um papel chave neste processo, como um tipo de “gatilho.” De qualquer modo, além de não haver nenhuma semelhança com os dons espirituais descritos no Novo Testamento, este “dom das línguas” está mais próximo do xamanismo praticado nas religiões primitivas, onde o xamã ou pajé faz uso de uma técnica regular para entrar em transe e enviar ou receber uma mensagem para algum “deus” em uma língua que lhe é desconhecida.[4]
Nas páginas seguintes nós veremos experiências “carismáticas” tão escabrosas que a comparação com o xamanismo não parecerá exagerada, principalmente se nós entendermos que o xamanismo primitivo é uma expressão particular de um fenômeno religioso que, longe de ser estranho ao Ocidente contemporâneo, na verdade desempenha um papel significativo na vida de alguns “cristãos” de hoje: a mediunidade.
 

A mediunidade “cristã”

Um pastor luterano alemão, Dr. Kurt Koch, fez um estudo cuidadoso e objetivo do “dom das línguas,” publicado em seu livro “The Strife of Tongues” (Conflito das Línguas, em português). Depois de examinar centenas de exemplos de manifestações recentes deste “dom,” ele chegou à conclusão, fundamentada em princípios bíblicos, de que apenas quatro casos poderiam ser do dom descrito nos Atos dos Apóstolos, embora ele não pudesse afirmar com absoluta certeza. O cristão Ortodoxo, fundamentando-se na plenitude da Tradição patrística da Igreja de Cristo, seria mais rigoroso em seu julgamento do que o Dr. Koch. E no entanto, como prova contra esses poucos casos supostamente positivos, Dr. Koch encontrou diversos casos inquestionáveis de possessão demoníaca — pois o “dom das línguas” é, de fato, um “dom” comum da possessão. Mas é na conclusão do Dr. Koch que encontramos aquilo que é, talvez, a chave para a compreensão deste movimento em sua plenitude: ele conclui que o movimento das “línguas” não é exatamente uma “renovação,” pois nela há pouco arrependimento ou condenação dos pecados, mas essencialmente uma busca pelo poder e experimentação. O fenômeno das línguas não é o dom descrito nos Atos, nem é, na maioria dos casos, possessão demoníaca real — ao invés disso, “torna-se mais e mais claro que talvez mais de 95% de todo o movimento das línguas seja de caráter mediúnico” (Koch, p. 35).
E o que é um “médium”? Um médium é uma pessoa com uma certa sensibilidade psíquica que lhe capacita a ser veículo ou meio para a manifestação de seres ou forças invisíveis — e como afirmou claramente[5] o venerável Ambrósio de Optina, quando tais seres estão verdadeiramente envolvidos, sempre são espíritos decaídos deste reino, e não “espíritos dos desencarnados” como imaginam os espíritas. Quase todas as religiões não cristãs fazem amplo uso de dons mediúnicos, como a clarividência, hipnose, curas “milagrosas,” aparição e desaparecimento de objetos, bem como sua movimentação de um lugar a outro, etc.
Devemos notar que vários santos Ortodoxos possuíram dons similares — mas há uma imensa diferença entre os verdadeiros dons cristãos e sua imitação mediúnica. O verdadeiro dom cristão da cura, por exemplo, é dado por Deus em resposta direta à oração fervorosa, e especialmente na oração de um homem que agrada a Deus, um justo ou santo (São Tiago 5:16), e também através do contato com fé com objetos que foram santificados por Deus (água benta, relíquias de santos, etc. — veja Atos 19:12, II Reis 13:21). Mas uma cura mediúnica, como qualquer outro dom mediúnico, é efetuada por meio de certos estados psíquicos e técnicas precisas que uma pessoa pode, através da prática, desenvolver e utilizar, e que nada têm a ver com a santidade ou com a ação de Deus. Pode-se adquirir habilidade mediúnica por herança ou pela transferência através do contato com alguém que tenha o dom, ou mesmo através da leitura de livros de ocultismo [6].
Muitos médiuns afirmam que seus poderes não são sobrenaturais, mas vêem de uma parte da natureza acerca da qual conhecemos muito pouco. De certa forma, isto é, sem dúvida, verdadeiro; mas é também verdadeiro que o reino do qual estes dons procedem é o reino particular dos espíritos decaídos, os quais não hesitam em usar quaisquer oportunidades propiciada pelas pessoas que entram neste reino para atraí-las para suas armadilhas, somando seus próprios poderes e manifestações demoníacas a fim de conduzir as almas dos homens à destruição. E qualquer que seja a explicação dos vários fenômenos mediúnicos, Deus em sua Revelação à humanidade proibiu estritamente qualquer contato com este reino oculto: “Não se ache no meio de ti quem faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha, nem quem se dê à adivinhação, à astrologia, aos agouros, ao feiticismo, à magia, ao espiritismo, à adivinhação ou à invocação dos mortos, porque o Senhor, teu Deus, abomina aqueles que se dão a essas práticas, e é por causa dessas abominações que o Senhor, teu Deus, expulsa diante de ti essas nações.” (Dt. 18:10-12, veja também Lv. 20:6).
Na prática é impossível conciliar a mediunidade com o cristianismo genuíno, pois o anseio por poderes ou fenômenos mediúnicos é incompatível com o ensinamento cristão da salvação da alma. Isto não quer dizer que não há “cristãos” que estejam envolvidos com espiritismo, muitas vezes inconscientemente — conforme veremos — mas não são cristãos genuínos, seu cristianismo não é apenas “um novo cristianismo” como Nicholas Berdyaev pregava — e que será discutido novamente abaixo.
O Dr. Koch, mesmo com um histórico protestante, faz uma observação pertinente ao notar: “A vida religiosa de uma pessoa não é prejudicada pelo ocultismo ou espiritismo. De fato o espiritismo é, de certo modo, um movimento “religioso.” O demônio não nos tira nossa “religiosidade”... [Mas] há uma grande diferença entre ser religioso e renascer pelo Espírito de Deus. Infelizmente tenho que dizer que em nossas tradições cristãs haja mais pessoas “religiosas” do que cristãos verdadeiros.”[7]
A forma mais conhecida de mediunidade no mundo ocidental moderno é a sessão espírita, quando é feito contato mediante certas forças que produzem efeitos observáveis como batidas, vozes, vários tipos de comunicação como a psicografia e o falar em línguas desconhecidas, a movimentação de objetos, a aparição de mãos e figuras “humanas” que podem, algumas vezes, ser fotografadas. Estes efeitos são produzidos com auxílio de ações e técnicas preestabelecidas da parte dos presentes, tornando relevante citar aqui um dos livros essenciais sobre esse assunto.[8]
 

1.Passividade: “A atividade de um espírito é mensurada pelo grau de passividade ou submissão que ele encontra no sensitivo ou médium.” “A mediunidade ... pode ser desenvolvida por qualquer pessoa através do cultivo aplicado da entrega voluntária de seu corpo, juntamente com suas faculdades sensoriais e intelectuais, para um espírito controlador e invasor.”

2.Solidariedade na fé: Todos os presentes devem ter “uma predisposição mental de afinidade para amparar o médium.” Fenômenos espirituais são “favorecidos por uma certa afinidade que surge da harmonia de idéias, visões e sentimentos que existe entre os participantes e os médiuns. Quando a afinidade, harmonia, ou a resignação pessoal da vontade são conflitantes nos membros do ‘círculo’, a sessão espírita é um fracasso.” Do mesmo modo, “o número de participantes é de vital importância — se em número muito grande, podem obstar a harmonia necessária para o sucesso.”

3.Todos os participantes “dão as mãos para formar o chamado círculo magnético. Por este circuito fechado, cada membro contribui com a energia de uma certa força que é comunicada coletivamente para o médium.” Porém, o “círculo magnético” é necessário apenas para médiuns menos desenvolvidos. Madame Blavatsky, a fundadora da “teosofia” moderna, ela mesma uma médium, mais tarde riu das técnicas cruas do espiritismo quando encontrou médiuns muito mais poderosos no oriente — categoria a qual o faquir descrito no capítulo 3 parece pertencer.

4.A atmosfera espiritual necessária é comumente induzida por meios artificiais, como a canção de hinos, música ambiente suave, ou mesmo orações.

A sessão espírita, seguramente, é a forma mais crua de mediunidade — ainda que, justamente por este motivo, suas técnicas são as mais evidentes — e apenas raramente produz resultados espetaculares. Há outras formas mais sutis, e algumas delas são chamadas de “mediunidade cristã.” Para percebermos isso, basta analisar as técnicas de “cura pela fé” como as de Oral Roberts — que até se juntar à Igreja Metodista há poucos anos atrás, foi ministro da seita Santidade Pentecostal — que realizou curas “milagrosas” ao formar um “círculo magnético” composto de pessoas dotadas de afinidade, passividade e harmonia de “fé” necessárias, e que faziam imposição de mãos pela televisão — as curas poderiam ocorrer até mesmo se a pessoa bebesse um copo d’água colocado sobre o aparelho de TV e que, portanto, absorveu o fluxo de forças mediúnicas transmitidas pelos médiuns. Mas tais curas, como aquelas produzidas pelo espiritismo e bruxaria, podem custar caro, ocasionando posteriores desordens psíquicas e até mesmo espirituais.[9]
Devemos ser extremamente cautelosos nesses casos, porque o demônio está constantemente estorvando os trabalhos de Deus e muitas pessoas com dons mediúnicos continuam a pensar que são cristãs e que seus dons procedem do Espírito Santo. Mas é realmente possível dizer isso em relação à “renovação carismática” — ela é realmente, como alguns dizem, um tipo de manifestação mediúnica?
Ao se aplicar os testes mais óbvios para o fenômeno mediúnico à “renovação carismática,” a característica mais chocante é que todos os pré-requisitos descritos acima para uma sessão espírita estão presentes nos encontros de oração “carismática,” onde nenhuma destas características está presente, na mesma forma ou grau, na verdadeira louvação cristã da Igreja Ortodoxa.

1.A “passividade” da sessão espírita corresponde àquilo que os escritores “carismáticos” chamam “esvaziar a mente... Isso envolve mais do que a dedicação da existência consciente através de um ato de vontade; também se refere a uma área mais extensa, oculta, da vida subconsciente... Tudo o que pode ser feito é oferecer a si — corpo, mente, e mesmo a língua — para que o Espírito de Deus tenha possessão plena... Tais pessoas estão preparadas — as barreiras foram derrubadas e Deus age poderosamente sobre e através de to do o seu ser” (Williams, pp. 62-63; itálico no original) Tal atitude “espiritual” não é aquela do cristianismo — ao invés disso, ela é a atitude do Zen budismo, do “misticismo” oriental, da hipnose e do espiritismo. Tal passividade exagerada é inteiramente estranha à espiritualidade ortodoxa, e é uma porta aberta para a atividade de espíritos enganadores. Um participante nota que nos encontros pentecostais as pessoas que estão falando em línguas ou interpretando “parecem quase entrar em transe” (Sherril, p. 87). Esta passividade é tão evidente em certas comunidades “carismáticas” que elas aboliram completamente a organização da igreja e a estrutura ordenada dos cultos, fazendo absolutamente tudo o que o “espírito” manda.

2. Há uma clara “solidariedade na fé” — e não apenas uma solidariedade na fé cristã e esperança de salvação, mas uma unanimidade específica no desejo e na expectativa de fenômenos “carismáticos.” Isto é fato em todos os encontros “carismáticos” de oração, mas uma solidariedade ainda mais notável é necessária para a experiência do “Batismo do Espírito Santo,” geralmente realizado em um pequeno quarto separado na presença daqueles poucos que já tiveram a experiência. A presença de uma única pessoa sequer que tenha pensamentos negativos acerca da experiência é freqüentemente suficiente para impedir a ocorrência do “Batismo” — exatamente no sentido em que as dúvidas e a oração do padre Ortodoxo descritos abaixo foram suficientes para quebrar a impressionante ilusão produzida pelo faquir do Sri Lanka.

3. O “círculo magnético” espírita corresponde à “imposição de mãos” pentecostal, que sempre feita por aqueles que já passaram pelo “Batismo” acompanhado do dom das línguas e que servem, nas palavras dos próprios Pentecostais, como “canais do Espírito Santo” (Williams, p. 64) — uma palavra usada pelos espíritas para se referir aos médiuns.

4. Tanto a atmosfera “carismática” quanto a espírita é induzida por meio de orações e hinos sugestivos, e freqüentemente, também é acompanhada por palmas — tudo aquilo que proporciona um “efeito emocional crescente, quase inebriante” (Sherril, p. 23)

Pode-se ainda aduzir que todas as similaridades entre os fenômenos mediúnicos e o pentecostalismo são apenas coincidências. Inclusive, visando mostrar se a renovação carismática é realmente mediúnica ou não, teremos que determinar qual tipo de “espírito” se comunica através dos canais pentecostais.
Um número de testemunhos de participantes que acreditam que é o Espírito Santo apontam claramente para sua natureza. “O grupo ao meu redor aproximou-se. Era como se eles tivessem formando um funil com seus corpos através do qual concentrava-se o fluxo do Espírito que pulsava pela da sala. Fluiu em mim quando sentei-me lá” (Sherril, p. 122). Em um encontro de oração católico pentecostal, “ao entrar no recinto éramos praticamente arrebatados pela forte presença palpável de Deus” (Ranaghan, p. 79; compare com a atmosfera “vibrante” de alguns ritos pagãos e hindus; veja acima, pg. 50). Outro homem descreve sua experiência “Batismal”: “Eu tomei ciência de que o Senhor estava na sala e que Ele se aproximava de mim. Eu não podia vê-lo, mas sentia uma pressão em minhas costas. Eu parecia sair do chão...” (Logos Journal, Nov.-Dec., 1971, p.47). Outros exemplos similares serão mostrados abaixo na discussão dos complementos físicos da experiência “carismática.” Este espírito “pulsante,” “visível,” que “faz pressão,” que “se aproxima,” e “flui” parece confirmar o caráter mediúnico do movimento “carismático.” Certamente jamais poderíamos descrever o Espírito Santo dessa maneira!
Chamaremos a atenção para uma estranha característica do dom das línguas “carismático” que já mencionamos: ele ocorre não apenas na experiência inicial do “Batismo do Espírito Santo,” mas deve ser um fenômeno constante — público e particular — até tornar-se um “acompanhamento essencial” da vida religiosa — do contrário, os “dons do Espírito” podem cessar. Um escritor presbiteriano “carismático” fala de uma função específica desta prática ao se “preparar” para os encontros carismáticos:
“Em muitos casos ... um pequeno grupo passará um certo tempo antes do encontro rezando pelo Espírito — isto é, em línguas. Ao fazer isso, multiplica-se enormemente na reunião a sensação da presença e poder de Deus sobre o grupo.” E novamente: “Nós achamos que aqueles que rezam silenciosamente para o Espírito durante os encontros ajudam a manter uma abertura para a presença de Deus... [pois] depois que uma pessoa se acostuma a falar em línguas em voz alta ... logo se torna possível que, em sua respiração manifeste-se o sopro do Espírito através de suas cordas vocais e língua permitindo, dessa maneira, que a pessoa ore interiormente de maneira silenciosa e profunda” (Williams, p. 31).
Lembremos ainda que é possível impulsionar o dom das línguas através de certos artifícios, como “fazer sons com a boca” — e chegamos à inevitável conclusão de que o dom das línguas “carismático” não é um “dom,” mas sim uma técnica adquirida por meio de outras técnicas e impulsionando, por sua vez, outros “dons do Espírito,” se a pessoa continuar a praticá-la e cultivá-la. Não temos aqui uma pista para a principal realização verdadeira do movimento pentecostal moderno? Ou seja, a descoberta de uma nova técnica mediúnica para induzir e manter um estado psíquico no qual dons “milagrosos” tornam-se lugar-comum. Se isso for verdade, então a definição “carismática” de “imposição de mãos” — “o simples ministério pelo qual uma ou mais pessoas que são canais do Espírito Santo para outras ainda não tão abençoadas,” onde “o importante é que aqueles que ministram tenham sentido por si próprios a efusão do Espírito Santo” (Williams, p.64) — descreve precisamente a transferência do dom mediúnico por parte daqueles que já o adquiriram e se tornaram médiuns. O “Batismo do Espírito Santo” torna-se, assim, uma iniciação mediúnica.
Na verdade, se a “renovação carismática” é realmente um movimento mediúnico, muito do que não entendemos a seu respeito quando a vemos como um movimento cristão passa a fazer sentido. O movimento surgiu nos EUA, onde cinqüenta anos antes surgira o espiritismo, em uma atmosfera psicológica similar: uma fé protestante racionalizada e morta que é subitamente esmagada pela experiência real de um “poder” invisível que não se pode explicar racionalmente ou cientificamente. O movimento foi mais bem sucedido naqueles países que possuem uma história tradicional de espiritismo ou mediunidade: primeiramente nos EUA e Inglaterra, depois Brasil, Japão, Filipinas e a África negra. Raramente se encontram exemplos do “falar em línguas” em quaisquer contextos cristãos por um período de 1600 anos após a época São Paulo — e mesmo nestes casos são fenômenos de histeria isolados e efêmeros — mais precisamente até o surgimento do movimento pentecostal no século XX, como destacou o pesquisador de história da religiões[10]. Vários xamãs e pajés de religiões primitivas, assim como médiuns espíritas modernos e pessoas possessas possuem estes mesmos dons. As “profecias” e as “interpretações” dos cultos “carismáticos,” como veremos, possuem uma expressão estranhamente vaga e estereotipada, sem nenhum conteúdo especificamente profético ou cristão. A doutrina subordina-se à prática, e o lema de ambos os movimentos pode ser, como dizem os “carismáticos”: “funcional” — precisamente a mesma armadilha em que caem aqueles seduzidos pelo hinduísmo. Há poucas dúvidas de que a “renovação carismática,” no que tange aos seus fenômenos, carrega muito mais semelhanças com o espiritismo e com as religiões não-cristãs em geral do que com Cristianismo Ortodoxo. Mas ainda mostraremos muitos exemplos para demonstrar a verdade desta afirmação.
Até agora apresentamos, com exceção das afirmações do Dr. Koch, apenas opiniões favoráveis à “renovação carismática,” de pessoas que dão seu testemunho sobre o que eles imaginam ser os trabalhos do Espírito Santo. Vejamos agora o testemunho de várias pessoas que deixaram o movimento “carismático,” ou se recusaram a fazer parte dele porque julgaram que o espírito que os guia não é o Espírito Santo.

1.Em Leicester (Inglaterra) um jovem e seu amigo que participaram da renovação por alguns anos, antes de serem convidados para um encontro de um grupo que falava em línguas. Eles se deixaram envolver pela atmosfera do encontro, e logo em seguida oraram pedindo a segunda benção e o batismo do Espírito Santo. Depois de uma oração intensa, eles sentiram como se algo quente pairasse sobre eles, e se sentiram tomados por uma forte emoção. Por algumas semanas eles se regozijaram com esta nova experiência, mas lentamente esse sentimento diminuiu. O homem que me contou este fato havia perdido todo o desejo de ler a Bíblia e rezar. Ele examinou sua experiência à luz das Escrituras e percebeu que aquilo não era de Deus. Ele se arrependeu e condenou essa experiência... Seu amigo, por outro lado, permaneceu no movimento, e isso o destruiu. Hoje em dia, ele pensa em deixar o cristianismo (Koch, p. 28).

2.Dois ministros protestantes participaram de um encontro “carismático” de oração em uma Igreja Presbiteriana em Hollywood. “Ambos concordamos de antemão que quando a primeira pessoa começasse a falar em línguas, nós rezaríamos mais ou menos o seguinte: ‘Senhor, se este dom vem de Vós, abençoa este irmão, mas se não vem de Vós, então que isso cesse e permita que ninguém mais ore em línguas em Tua presença...’ Um jovem começou o encontro com uma breve devoção e, em seguida, abriu espaço para as orações. Uma mulher começou a orar fluentemente em uma língua estranha sem gagueira ou hesitação. Ninguém podia interpretar o que ela dizia. Eu e o Rev. B. começamos a rezar silenciosamente como já havíamos combinado. O que aconteceu? Ninguém mais falou em línguas, apesar de que freqüentemente nestes encontros, todos eles, exceto um arquiteto, rezam em línguas desconhecidas” (Koch, p. 150). Note aqui que na ausência da solidariedade mediúnica da fé o fenômeno não se manifesta.

3.“Em San Diego, Califórnia, uma mulher veio nos pedir um conselho. Ela me contou a má experiência que tivera durante uma missão organizada por um membro do “movimento das línguas.” Ela foi para este encontro no qual ele falou acerca da necessidade do dom das línguas e, depois do encontro, esta senhora permitiu que lhe impusessem as mãos sobre sua cabeça para receber o batismo do Espírito Santo e o dom das línguas. Naquele momento ela caiu inconsciente. Ao olhar ao seu redor, se viu deitada no chão movendo os lábios automaticamente, mas sem pronunciar uma única palavra. Ela estava terrivelmente amedrontada. De pé ao seu redor estavam alguns dos seguidores deste evangelista, que gritaram: ‘Ó irmã, você falou maravilhosamente em línguas. Agora você tem o Espírito Santo.’ Mas a vítima deste suposto ‘batismo do Espírito Santo’ estava curada. Ela nunca mais retornou a este grupo dos falantes de línguas. Quando veio me procurar, ela ainda sofria as conseqüências ruins deste ‘batismo espiritual’ “ (Koch, p. 26).

4.Um cristão ortodoxo na Califórnia narra um encontro privado com um ministro ‘cheio do espírito’ que dividiu o mesmo palco com os principais representantes dos movimentos de “renovação carismática” católicos, protestantes e pentecostais: “Por cinco horas ele falou em línguas e utilizou todo tipo de artifício (psicológico, hipnótico e a ‘imposição das mãos’) para induzir àqueles presentes a receber o ‘batismo do Espírito Santo.’ A cena foi realmente terrível. Quando ele impôs as mãos em nossa amiga ela fez sons guturais, gemeu, chorou e gritou. Ele ficou muito satisfeito com isso, e disse que ela estava sofrendo por outros — intercedendo por eles. Quando ele ‘impôs as mãos’ sobre minha cabeça, senti um mal palpável. Suas ‘línguas’ eram intercaladas com o Inglês : ‘Você tem o dom da profecia, eu posso senti-lo.’ ‘Abra a sua boca e tudo fluirá.’ ‘Você está bloqueando o Espírito Santo.’ Pela graça de Deus eu mantive a minha boca fechada, mas eu estou quase certo de que se eu tivesse falado, alguém mais teria ‘interpretado’ “ (Comunicação Privada).

5. Leitores do periódico The Orthodox World se recordarão do relato da “vigília de oração” organizada pela Arquidiocese Antioquina de Nova Iorque em sua convenção em agosto de 1970 em Chicago, onde após criar uma atmosfera dramática e emocionante, alguns jovens começaram a “testemunhar” como o “espírito” os conduzia. Porém, várias pessoas que estavam presentes relataram que a atmosfera estava “sombria e ignominiosa,” “sufocante,” “maligna,” e por uma milagrosa intercessão de São Germano do Alasca, cujo ícone estava presente no recinto, o encontro acabou e a atmosfera maligna se dissipou (The Orthodox World, 1970, nos. 4-5, pp. 196-199).

Há ainda diversos casos em que pessoas perderam seu interesse nas orações, na leitura das Escrituras e no Cristianismo em geral, e chegam a ponto de crer, como disse um estudante, que “ele não necessitava mais ler a Bíblia. Deus Pai aparecia e falava com ele” (Koch, p. 29).
Ainda poderemos citar o testemunho de muitas pessoas que não encontram qualquer elemento negativo ou maligno em suas experiências “carismáticas,” e examinaremos o significado de seus testemunhos. Porém, sem chegar a uma conclusão sobre a precisa natureza do “espírito” que causa os fenômenos “carismáticos,” e baseando-se nas evidências que já coletamos, até então podemos concordar com o Dr. Koch: “O movimento de línguas é a expressão de uma condição delirante através da qual há manifestação de poder demoníaco” (Koch, p. 47). Isto é, o movimento, que é certamente “delirante” por se entregar à atividade de um “espírito” que não é o Espírito Santo, não é demoníaco em intenção ou em si mesmo — como o ocultismo contemporâneo e o satanismo certamente são — mas por sua própria natureza particular, ele abre brechas para manifestações de forças obviamente demoníacas que, às vezes, realmente se manifestam. Várias pessoas que leram este livro já participaram da “renovação carismática”; muitas delas deixaram o movimento, admitindo que o espírito que elas sentiram nos fenômenos “carismáticos” não era o Espírito Santo.
Para as pessoas que estão envolvidas no “movimento carismático” e que agora estão lendo este artigo, nós queremos dizer que é possível sentir que a sua experiência no “movimento carismático” foi algo basicamente bom, e mesmo que você ainda tenha reservas acerca de algumas coisas, você as viu e sentiu, e pode ser incapaz de acreditar que há qualquer coisa demoníaca nessas experiências. Ao supor que o “movimento carismático” seja de inspiração mediúnica, nós não queremos denegrir toda a sua experiência pessoal com o movimento. Se você despertou para o arrependimento de seus pecados, para aceitar a o fato de que o Senhor Jesus Cristo é o Salvador da humanidade e para o amor sincero a Deus e ao seu próximo — tudo isso é bom e não será perdido ao abandonar o movimento “carismático.”
Mas se você pensa que a sua experiência de “falar em línguas” ou “profetizar,” ou o que quer que seja de “sobrenatural” que você tenha sentido vem de Deus — então este artigo é um convite para você perceber que o verdadeiro reino da experiência espiritual cristã é muito mais profundo do que você sentiu até agora, que os ardis do demônio são muito mais sutis do que você imagina, e que a tendência de nossa natureza humana decaída para tomar a ilusão como a verdade e tomar a experiência de conforto emocional como espiritual é muito maior do que você pensa.
Não é possível dar uma resposta simples a respeito da natureza precisa das “línguas” faladas hoje em dia. Nós sabemos com plena certeza que no pentecostalismo, assim como no espiritismo, os elementos de fraude e de sugestão desempenham um papel importante, às vezes sob as pressões intensas aplicadas nos meios “carismáticos,” para forçar o aparecimento desses fenômenos. Por exemplo, um membro do extenso “Movimento de Jesus” (pentecostal), diz que quando falava em línguas “tudo não passou de um arroubo emocional, onde apenas murmurei um monte de palavras,” e outro admite francamente “Quando eu me tornei um Cristão as pessoas com quem eu me relacionava contaram que eu tinha de fazer isso. Assim orei para que pudesse fazê-lo e imitava os outros para que pensassem que eu tinha o dom” (Ortega, p. 49). Portanto, algumas das supostas “línguas” não são genuínas, ou são, no máximo, produto de sugestão estimulada sob condições emocionais de quase histeria. Porém, há atualmente casos documentados de falas em línguas desconhecidas em meios Pentecostais (Sherril, pp. 90-95); há também o testemunho de muitos sobre a autoconfiança e a calma, sem qualquer condição histérica, que podem conduzir a um estado de “falar em línguas”; e há um caráter distintamente sobrenatural no fenômeno relatado do “cantar em línguas,” onde o “espírito” também inspira a melodia e muitos participam simultaneamente de modo a produzir um efeito que é descrito como “lúgubre, mas misteriosamente belo” (Sherril, p. 118) e “inimaginável e humanamente impossível” (Williams, p. 33).
Parece evidente, portanto, que uma explanação meramente psicológica ou emocional não pode explicar plenamente o fenômeno contemporâneo do “dom das línguas.” Se isso não ocorre por ação do Espírito Santo — e já é bastante evidente que não é o caso — então o “dom das línguas” de hoje, como um autêntico fenômeno “sobrenatural,” só pode ser a manifestação de um dom de algum outro espírito.
Para identificar com precisão este “espírito” e entender o “movimento carismático” mais plenamente, não apenas seus fenômenos, mas também sua “espiritualidade,” nós teremos que estudar mais profundamente as fontes da tradição Ortodoxa. E antes de tudo nós teremos que retornar ao ensinamento da tradição ascética ortodoxa que foi discutida nesta série de artigos, ao explicar o poder que o Hinduísmo possui sobre os seus devotos: prelest, ou engano espiritual.
 

Engano espiritual

O conceito de “prelest”, importantíssimo no ensinamento ascético ortodoxo, está completamente ausente no mundo católico/protestante que produziu o “movimento carismático”; e isto explica porque uma enganação tão óbvia pode ter tal receptividade em círculos ditos “cristãos,” e também porque um “profeta” como Nicholas Berdyaev, de origem Ortodoxa, a reconheceria como absolutamente essencial na “Nova Era do Espírito Santo.” “Não haverá mais a visão ascética do mundo.” O motivo é óbvio — a visão ascética do mundo da Ortodoxia é o único meio pelo qual o homem, tendo recebido o Espírito Santo em seu Batismo e em sua Crisma, pode verdadeiramente continuar a adquirir o Espírito Santo em suas vidas, ensinando como distinguir e guardar-se contra o engano espiritual. A “nova espiritualidade” que Berdyaev sonhou e que a “renovação carismática” pratica atualmente, possui um fundamento inteiramente diferente e à luz do ensinamento ascético ortodoxo revela-se como uma fraude. Logo, não há lugar para ambas as concepções no mesmo universo espiritual: para aceitar a “nova espiritualidade” da “renovação carismática” é necessário rejeitar o cristianismo Ortodoxo; e reciprocamente, para permanecer um cristão Ortodoxo, deve-se rejeitar a “renovação carismática” que é uma falsificação da Ortodoxia.
Para deixar isso bem claro, a seguir mostraremos o ensinamento da Igreja Ortodoxa a respeito do “engano espiritual,” principalmente sua forma mais comum no século XIX, feita pelo Bispo Inácio Brianchaninov, um Padre Ortodoxo dos tempos modernos, no volume I de suas “Obras selecionadas.”
Há duas formas básicas de prelest ou engano espiritual. A primeira e mais espetacular ocorre quando uma pessoa se esforça para atingir um estado espiritual mais elevado ou busca visões espirituais sem se purificar das paixões e confiando apenas em seu próprio julgamento. Para tais pessoas o demônio oferece grandes “visões.” Há muitos exemplos disso na Vida dos Santos, um dos primeiros livros dos ensinamentos ascéticos Ortodoxos.
Por exemplo, Santo Aniceto, Bispo de Novgorod (31 de janeiro), entrou na vida solitária despreparado e contra os conselhos de seu abade, e logo ouviu uma voz rezando com ele. Então “O Senhor” falou com ele e lhe enviou um “anjo” para rezar em seu lugar e para instruí-lo a ler os livros ao invés de rezar, e para ensinar aqueles que viessem até ele. E assim ele fez, sempre vendo o “anjo” próximo a ele rezando, e as pessoas estavam atônitas com a sua sabedoria espiritual e com os “dons” do Espírito Santo que ele parecia possuir, incluindo “profecias” que eram sempre cumpridas. A fraude foi descoberta apenas quando os padres do mosteiro descobriram sobre sua aversão ao Novo Testamento — apesar de embora nunca ter lido o Antigo Testamento, ele conseguia citá-lo de cor — e pelas orações de seus irmãos ele se arrependeu, seus “milagres” cessaram e mais tarde ele obteve a genuína santidade. Outro exemplo é Santo Isaac das Cavernas de Kiev (14 de fevereiro) que viu uma grande luz em que “Cristo” apareceu para ele com “anjos”; quando Isaac, sem fazer o sinal da cruz, prostrou-se diante do “Cristo,” os demônios ganharam poder sobre ele e, depois de dançar selvagemente com ele, deixaram-no quase morto. Ele também obteve, posteriormente, a santidade genuína. Há muitos casos similares quando “Cristo” e “anjos” apareceram aos ascetas e ofereceram poderes surpreendentes e “dons do Espírito Santo,” quando freqüentemente conduziram a uma ascese ilusória que fatalmente levava-os à insanidade e ao suicídio. Mas há enganações mais comuns e menos espetaculares, que não oferece as suas vítimas grandes visões, mas somente algumas “sensações religiosas” exaltadas. Isto ocorre, segundo o Bispo Ignácio, “quando o coração luta para obter sentimentos santos e divinos quando não está preparado para tê-los. Todo aquele que não tem um espírito contrito, que reconhece em si mesmo algum valor ou mérito, que não preserva os ensinamentos da Igreja Ortodoxa e baseia sua crença em critérios arbitrários e tradições não-ortodoxas.” A Igreja Católica Romana tem diversos manuais “espirituais” escritos por pessoas neste estado de auto-ilusão, como o livro de Tomás a Kempis, “Imitações de Cristo.” O Bispo Ignácio disse o seguinte sobre este livro: “Reina e respira neste livro a unção do espírito maligno, afogando o leitor, intoxicando-o... Este livro conduz o leitor a uma direta comunhão com Deus, mas sem uma prévia purificação mediante o arrependimento. As pessoas materialistas ficam extasiadas e intoxicadas com este estado obtido sem dificuldades, sem a crucificação da carne e de seus desejos e paixões (Epístola de São Paulo as Gálatas 5:24), satisfazendo-se com este estado de queda.” E o resultado disso, segundo I. M. Kontzevitch, grande professor do ensinamento patrístico, escreveu: “o asceta que luta para obter um sentimento de prazer, êxtase, tem como resultado justamente o oposto: ‘entra em comunhão com Satanás e se infecta com ódio contra o Espírito Santo’ (Bispo Ignácio).”
E este é o verdadeiro estado dos seguidores da “renovação carismática,” e eles nem suspeitam disso. Podemos perceber isso analisando suas experiências e visões, ponto a ponto, e comparando-as com os ensinamentos dos Padres Ortodoxos, como expõe o Bispo Ignácio.
 

A atitude em relação às experiências “espirituais.”

TENDO POUCO OU NENHUM FUNDAMENTO nas fontes genuínas da espiritualidade cristã — os sagrados Mistérios da Igreja, os ensinamentos espirituais transmitidos pelos Santos Padres e Apóstolos de Cristo — os seguidores da “renovação carismática” não possuem nenhum diferencial sobre o que é graça de Deus e o que é enganação. Todos os “escritores carismáticos” mostram, em grau maior ou menor, uma falta de cautela e discernimento em relação às experiências que tiveram. Alguns Católicos Pentecostais, por segurança, “exorcizam o satã” antes de começar o “Batismo pelo Espírito”; mas a eficácia deste ato, como será evidente a partir de seu próprio testemunho, é similar àquela dos judeus nos Atos (19:15), cujo espírito respondeu: “Eu conheço Jesus e sei quem é Paulo; mas quem são vocês?” São João Cassiano, o maior Padre Ortodoxo do Ocidente do século V, escreveu com grande exatidão o trabalho do Espírito Santo em sua conferência “Dons Divinos” escrevendo que: “às vezes os demônios [operam milagres] para encher o homem de orgulho, para que ele acredite em si mesmo, podendo assim prepará-lo para uma queda ainda mais milagrosa.” Fingem que estão sendo rapidamente queimados e expulsos dos corpos que estavam morando graças a santidade das pessoas que na verdade são profanas... No Evangelho lemos que: “Surgirá falsos Cristos e falsos profetas” [12].
No século XVIII um “visionário” sueco, Emanuel Swedenborg — precursor da estranha renovação oculta e “espiritual” dos dias de hoje — teve visões e comunicações com seres espirituais. Ele distinguiu dois tipos de espíritos, o “bom” e o “mau”; sua experiência foi experimentada por um psicólogo, num sanatório de “loucos” em Ukah. Este psicólogo estudou cuidadosamente as vozes ouvidas pelos pacientes e empreendeu uma série de “diálogos” com essas vozes (por intermédio dos pacientes). Ele concluiu, como Swedenborg que dois tipos de “seres” entram em contato com os pacientes: os da ordem “superior” e os da ordem “inferior.” Segundo o psicólogo: “As vozes dos seres ‘inferiores’ são semelhantes a de bêbados vagabundos, que se divertem farreando e atormentando. Sugerem atos lascivos, e gritam para que os pacientes cometam tais atos. Eles acham um ponto fraco na consciência trabalham neste ponto de maneira insistente... Seu vocabulário e idéias são limitadas, mas persistentes... Eles trabalham em toda fraqueza, reivindicando poderes temerosos, com mentiras, falsas promessas, e continuam até arruinar o paciente... Todos espíritos baixos são irreligiosos ou anti-religiosos... Apareceram a algumas pessoas como demônios...”
“Ao contrário das alucinações com seres ‘baixos’, as altas eram bem raras... Este contraste pode ser demonstrado com a história de um homem. Ele ouvia que há muito tempo os da ‘baixa’ ordem discutindo como iriam matá-lo. Mas algo luminoso como o sol apareceu para ele durante a noite. Ele descobriu que estes seres eram diferentes quando a luz respeitou sua liberdade, dizendo que se retirariam se ele ficasse amedrontado... Quando ele tomou coragem e se aproximou, a luz o colocou em um mundo com poderosas experiências luminosas... [Uma vez] uma poderosa imagem de Cristo apareceu... Alguns pacientes experimentaram as duas ordens, como se estivessem sentindo o céu e o inferno de maneira privada... Muitos foram atacados apenas pela ordem baixa. A ordem superior diz ter poder sobre a ordem inferior, e na verdade, demonstra isso em algumas situações.... mas não para trazer de maneira suficiente a paz para os pacientes. .. a ordem superior parece compreensível, sábia e religiosa...” estranhamente [13].
Qualquer estudioso das Vidas dos Santos Ortodoxos e da literatura espiritual ortodoxa sabe que tanto os espíritos “bons,” “ruins” ou “superiores” e “inferiores” — são todos demônios e que o discernimento sobre os espíritos bons (anjos) e ruins não pode ser feito com base em sentimentos e sensações individuais. A prática do “exorcismo” atual nos círculos “carismáticos” não dá nenhuma garantia que os espíritos ruins estão sendo expulsos, exorcismos são comuns (e aparentemente satisfatórios) até entre xamãs [14] primitivos, que reconhecem dois tipos de espíritos — mas todos são demônios, pois parecem que fogem quando exorcizados ou aparecem quando invocados por poderes xamánicos.
Nada pode negar que o movimento carismático é orientado pelo ocultismo contemporâneo e pelo satanismo. O próprio Satanás se transfigura em anjo de luz (Segunda Epístola de São Paulo aos Coríntios 11:14), para a pessoa não ser enganada se faz necessário uma grande dose de discernimento, aliada a uma profunda desconfiança de nossas experiências espirituais. Tendo em vista estes inimigos sutis e invisíveis, que estão em uma guerra contra o homem, e que aproveitam da ingenuidade das pessoas envolvidas nas experiências “carismáticas,” para fazer seus convites à enganação espiritual. Um pastor, por exemplo, aconselha meditações com passagens das Escrituras, e incentiva a escrita após a leitura: “Está é uma mensagem do Espírito Santo para você” (Christeson, pág. 139). Mas qualquer estudante da espiritualidade cristã sabe que no começo da vida monástica, alguns demônios instruem os noviços à interpretação das Sagradas Escrituras... “aos enganados de maneira gradual, conduzindo-os para a heresia e blasfêmia” (A Escalada de São João, Passo 26:152).
Infelizmente, os seguidores ortodoxos da renovação “carismática” não demonstram mais discernimento que os católicos e protestantes. Eles provavelmente não conhecem os ensinamentos dos Patriarcas e a vida dos Santos, e quando raramente citam um padre, é fora de contexto (veja mais a frente sobre São Serafim). O chamado “carismático” é basicamente um chamado para a experiência. Um sacerdote ortodoxo escreveu: “Alguns se atreveram a rotular esta experiência como prelest — orgulho espiritual. Nada que encontre o Senhor deste modo pode levar a este tipo de enganação” (Logos, Abril 1972, p. 10). É difícil um cristão Ortodoxo distinguir as mais sutis formas de fraude espiritual (onde o orgulho, por exemplo, pode parecer humildade) tendo como base apenas seus sentimentos... Sem levar em conta a tradição dos pais da Igreja, somente quem assimilou todo ensinamento patrístico em sua vida consegue fazer tal distinção.
Como o Cristão Ortodoxo é preparado para vencer esta enganação? Ele tem todo ensinamento patrístico, inspirado por Deus, junto a Bíblia Sagrada, que apresentam o critério da Igreja de Cristo por mais de 1900 anos em relação às experiências espirituais e pseudo-espirituais. Assim veremos que a tradição tem uma posição firme e bem definida em relação ao aumento dos movimentos “carismáticos” e em relação à “nova efusão do Espírito Santo” atual. Mas antes mesmo de consultar os santos padres, o Cristão Ortodoxo já está protegido destas enganações, pois ele deve reconhecer que estas enganações estão em todos os lugares e dentro dele mesmo. O Bispo Ignácio escreveu: “Somos todos feitos de engano. Reconhecer isto é a maior prevenção contra ele. Ter este conhecimento é o principal para ficar livre dele.” Ele ainda cita Gregório, o Sinaíta que ensina: “Obter a verdade com toda precisão não é um trabalho fácil, assim como se purificar de todo estado contrário ao de graça, pois o diabo mostra suas fraudes para os novatos na forma de verdade, dando uma aparência espiritual ao que é mau” e ainda “Deus não ficará bravo com aquele que temendo o prelest, usa de uma extrema cautela, e não aceita o que foi enviado por Deus... Muito pelo contrário, Deus ficará feliz pelo seu bom-senso.”
Desta forma, sem nenhuma preparação para o combate, sem saber da existência das formas de enganação mais sutis (ao contrário das formas conhecidas de ocultismo), o católico, protestante, ortodoxo ou desinformado, vai para a oração desejando ser “batizado (ou cheio) do Espírito Santo.” A atmosfera da reunião é muito solta, sendo intencionalmente aberta pela atividade de algum “espírito.” Assim os católicos (que parecem mais cuidadosos que os protestantes) descrevem algumas de suas reuniões pentecostais: “Parecia não existir nenhuma barreira, nenhuma inibição... Sentaram de perna cruzada no chão. Senhoras de calça-comprida. Monges de hábitos brancos. Fumantes, bebedores de café... Todos rezavam de uma forma livre... Reconheci que estas pessoas estavam tendo um bom momento de oração. E eles diziam que o Espírito Santo habitava entre eles.” E outra reunião católica pentecostal: “com exceção do fato de não ter bebida, a reunião parecia um coquetel” (Ranaghan, pág. 157, 209). A atmosfera das reuniões “carismáticas” são informais, e ninguém se surpreende quando o “espírito” inspira uma velha senhora enquanto um general se lamenta durante a dança de outras pessoas (Sherril, pág. 118). Um Cristão Ortodoxo sensato, logo percebe que nestes ambientes há uma falta de conhecimento sobre os verdadeiros Serviços Divinos, como piedade e reverência, que procede do temor a Deus. Esta primeira impressão logo se confirma mediante a observação dos efeitos do “espírito” Pentecostal no ambiente em que ocorre o fenômeno.

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