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POR QUE REZAMOS PELO CZAR?
Tradução do Russo por Peter Perekrestov
Tradução do Inglês por Pedro Ravazzano
O Prefácio do Tradutor
Na Proskomedia antes da Divina Liturgia o sacerdote que celebra comemora
os mais Santos Patriarcas, os piedosos reis e rainhas ortodoxos, e os
abençoados fundadores do templo sagrado. Depois, durante a Liturgia, na
grande litania, novamente rezamos "pelos abençoados e sempre memoráveis
reis Ortodoxos e pelas devotadas rainhas", assim como pelos fundadores
do templo sagrado. Quem são esses "reis Ortodoxos piedosos e rainhas
devotadas", por que rezamos, e por que eles são imediatamente seguidos
pelos fundadores do templo?
Rezamos por aqueles monarcas Ortodoxos que estão vivendo e especialmente
por aqueles que repousaram, que durante suas vidas, apoiaram e
defenderam a Igreja Ortodoxa, e que também estimularam seu trabalho.
Aqui na América especialmente temos uma dívida a estes "reis e rainhas"
que fundaram, apoiaram e financiaram as missões Ortodoxas nesta terra e
depois construíram templos sagrados aqui. Não devemos esquecer suas
memórias.
Entre esses "reis piedosos" está o Mártir-Imperial Czar Nicolau II. No
sermão abaixo do Arcebispo João, ele nos dá um pouco de discernimento a
respeito do caráter sobre o Czar na vida de um ortodoxo - e não é o
ponto de vista político, que deve estimular a nossa veneração aos
Mártires Imperiais e Confessores. É uma grande alegria viver parar ver
os Mártires Imperiais glorificados e iconograficamente representados
pela Igreja a qual o Arcebispo João pertenceu, aproximadamente cinqüenta
anos depois que este sermão foi feito, quando ele exprimiu tal fervorosa
esperança.
Em Memória dos Mártires
Um sermão feito pelo Abençoado Arcebispo John Maximovich (então Bispo de
Xangai) em Julho 4/17, 1934, antes de um serviço comemorativo do repouso
das almas do Czar Nicolau II e os que foram martirizados com ele.
-
Em
nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Amanhã a Santa Igreja celebra a memória de Santo André, Bispo Creta, o
autor do Grande Cânone Penitencial, e nos reunimos aqui para rezar pelo
repouso das almas do Czar Mártir e os martirizados com ele. Na Rússia, o
povo de mesmo modo se encontra anualmente na igreja no dia de Santo
André de Creta, não entretanto, sem recordar a memória do santo
celebrado no dia seguinte, o Monge Mártir André que foi martirizado por
confessar Cristo e a Fé de Cristo. Este dia do Monge Mártir André (17 de
Outubro), os russos se reúnem para agradecer ao Senhor por ter salvado
milagrosamente a vida do Imperador Alexandre III em Borky, em 17/30 de
Outubro de 1888.Quando ele viajava de trem, houve um choque terrível,
causando um grande acidente onde todos os vagões foram destruídos menos
o que carregava o Czar e sua família (incluindo o Czarevich Nicolau).
E assim, no dia que se comemora o Monge André de Creta, martirizado
pelos inimigos de Cristo e da Sua Igreja, o herdeiro e futuro Imperador
Nicolau Alexandrovich foi salvo, enquanto no dia de Santo André de
Creta, aquele cujo tempos na terra terminaram pacificamente, o Imperador
foi morto por traidores ímpios. Na festa do Monge Mártir André, a Rússia
também honrou a memória do profeta Oséas - comemorado naquele mesmo dia
- que profetizou a Ressurreição. As igrejas foram construídas em honra
desses santos e lá o povo russo agradeceu a Deus por salvar o seu
Imperador. Trinta anos depois, no dia de Santo André, professor do
arrependimento, o Imperador foi assassinado diante dos olhos da nação
inteira que não tentou salvá-lo. Isto é muito mais assustador e
incompreensível como o Imperador Nicolau Alexandrovich personificar as
qualidades mais perfeitas de todos os Czares conhecidos, muito amado e
honrado pelo povo russo.
O Czar Mártir parecia com o Czar Alexei Mikhailovich, O Doce, mas
sobrepujado pela sua brandura incansável. A Rússia conhecia Alexandre
II, o Libertador, mas Tsar Nicolau II libertou até mais pessoas - nossos
irmãos Eslavos. A Rússia conhecia Alexandre III, o Pacificador, mas
Imperador Nicolau II não se confinou ao trabalho da paz durante o seu
próprio tempo, mas tomou grandes medidas para assegurar que os povos da
Europa e do mundo inteiro vivessem pacificamente resolvendo os seus
problemas em uma maneira diplomática. Com esta idéia em mente, na sua
iniciativa pessoal sem interesses e nobre, a Conferência de Haia foi
convocada.
A Rússia foi arrebatada por Alexandre I, que passou a ser chamado de
"abençoado" porque libertou a Europa do poder alheio de invasores. O
Imperador Nicolau II, em condições muito mais difíceis, lutou contra a
mesma tentativa de avanço de uma força estrangeira que queria estender o
seu poder sobre o povo Eslavo cujo sangue e Fé eram estranhos. Na sua
defesa o Imperador Nicolau expôs uma firmeza compromissada, a Rússia
teve o grande reformador Pedro I, mas se alguém revocar todas as
reformas empreendidas por Nicolau II, então não sabemos a quem é a maior
honra devida, reconhecendo, além disso, que o último executou as suas
reformas mais cuidadosamente, mais atentamente e sem aspereza. A Rússia
conhecia Ivan III e Ivan Kalita como o unificadores da Rússia, mas foi o
Czar Nicolau II que teve o trabalho de no ano 1915 reunir, embora
durante um breve tempo, todos seus filhos. O Imperador de toda Rússia,
ele foi primeiro Czar totalmente russo, a sua expressão espiritual e
moral interior foi tão excepcional que até os Comunistas, que tentaram
difamá-lo, só podiam repreendê-lo pela sua devoção e piedade.
É conhecido que ele sempre começava e terminava o seu dia em oração. Em
grandes festas da Igreja ele sempre participava dos Sacramentos, e se
misturava com os fiéis que se aproximavam do Grande Mistério, como ele
fez na abertura das relíquias de São Serafim de Sarov. Ele foi um
exemplo de pureza e a líder de uma família Ortodoxa exemplar. O Czar
criou suas crianças para que elas estivessem prontas para servir ao povo
russo, estritamente preparando-os para a labuta iminente e ao podvig.
Ele esteve profundamente atento às necessidades dos seus súditos e quis
clara e intimamente entender os seus trabalhos e serviços. Todos são
conscientes do ocorrido quando ele andou sozinho por várias milhas
carregando o equipamento cheio de um soldado para entender melhor as
condições do serviço militar. Ele andou sozinho, - o que claramente
refuta aqueles caluniadores que dizem que ele temeu por sua vida. Se
Pedro dissesse: "saiba Pedro que a sua vida não é querida quanto as
vidas da Rússia," então cada um pode dizer realmente que o Imperador
Nicolau Alexandrovich cumpriu essas palavras. Eles dizem que ele era
muito confiante. O grande pai da Igreja, São Gregório o Grande, disse
que quanto mais puro de coração, mais confiante é.
O que a Rússia deu ao seu Imperador de coração puro, que a amou mais do
que sua própria vida?
Ela devolveu com a difamação. Ele fora altamente moral - eles começaram
a falar dos seus "vícios". Ele amou a Rússia - eles começaram a falar da
traição. Mesmo o povo perto do Imperador repetiu esta difamação, criando
rumores e fofocas. Sob a influência de tantas pessoas maliciosas como
dissolutas, esses rumores aumentaram, e o amor pelo Czar começou a
esfriar. Depois eles começaram a falar "do perigo" da Rússia e
discutiram métodos de livrá-la deste perigo não existente. Em nome da
assim chamada "economia" da Rússia, eles começaram a dizer que o
Imperador deveria ser retirado. Esta maldade calculada teve o seu
sucesso - a Rússia foi separada de seu Czar. Em um terrível minuto em
Pskov ele foi deixado em paz. Os seus próximos não estavam por perto.
Havia gente leal, dedicada, mas eles não lhe foram permitidos o acesso.
O abandono assustador do Czar... Mas não foi ele que abandonou a Rússia;
a Rússia abandonou aquele que a amou mais do que a sua própria vida.
Vendo tudo isso e na esperança que a sua própria humilhação conteria e
subjugaria as paixões ansiosas das pessoas, o Czar abdicou o trono. Mas
as paixões nunca diminuem depois de alcançar seus desejos - eles com até
mais força. O tempo da alegria tinha vindo para aqueles que quiseram a
derrota do Czar. O resto permaneceu em silêncio. O Czar foi preso e os
eventos que seguiram foram inevitáveis. Ao abandonar um homem em uma
jaula com animais, mais cedo ou mais tarde, este homem será devorado. O
Czar foi morto, e a Rússia permaneceu em silêncio. Este terrível feito
foi tratado sem indignação; nenhum som do protesto foi ouvido. E este
silêncio é um grande pecado do povo russo, cometido no dia de Santo
André de Creta, o autor do Grande Cânone Penitencial que é lido durante
Grande Quaresma.
O Monarca da Rússia foi morto no porão da casa de Ekaterinburgo, privado
da coroa real pelo ser humano insidioso, mas não pela justiça de Deus -
privado da Santa Unção. Todos os regicídios na história da Rússia foram
cometidos por algum grupo exclusivo, não pelo povo. Quando Paulo foi
assassinado, o povo não ficou indiferente, e quando eles descobriram,
trouxeram as suas condolências e orações à sua sepultura por muitos anos
seguintes. O assassinato de Alexandre II soltou uma tempestade de
indignação na Rússia, que ajudou a fortalecer a fibra moral do povo,
como ficou evidente durante o reino de Alexandre III. Os russos foram
inocentes do sangue do Czar Libertador. Mas aqui, o povo, a nação russa
inteira, é culpada pelo sangue derramado do seu Czar. Alguns tomaram
parte no assassinato, outros, nada fizeram para impedir. Todos são
culpados e realmente devemos dizer: "o seu sangue está sobre nós, e nas
nossas crianças" (Mateus 27:25). Traição, infidelidade, a quebra de um
juramento de fidelidade ao Czar Miguel Feodorovich e todos os seus
sucessores, passividade, insensibilidade - esses são os elementos pelos
quais o povo russo teceu a grinalda com que coroaram o seu Czar.
Hoje é um dia de tristeza e penitência. Por que, podemos perguntar, o
Senhor foi Quem salvou aquele mesmo Czar no dia de Santo André o Mártir
- mas não o salvou no dia do outro Santo André, aquele que ensinou a
penitência? Respondemos com a grande tristeza - sim, o Senhor pode tê-lo
salvado desta vez também, mas o povo russo não era digna disto.
Agora o Imperador recebeu a coroa de mártir. Mas isto não nos justifica,
isso não diminui a nossa culpa. Do mesmo modo Judas, Pilatos e Caifás, e
aqueles que exigiram a morte de Cristo não foram justificados, mas foram
mais severamente acusados pela Ressurreição de Cristo.
É um grande pecado levantar a mão contra quem Deus ungiu. Quando as
notícias do assassinato de Saul foram trazidas ao Rei David, ele ordenou
que o mensageiro fosse morto, embora o mensageiro não tivesse culpa no
assassinato, mas só o fato de ter se apressado para trazer a notícia,
ele assim acabou se implicando na morte do rei. A menor parte do
envolvimento em tal pecado não é impune.
Qual Relevância?
Muitos dos nossos leitores americanos podem não entender como devem
relacionar-se com este sermão, que o Abençoado Vladyka João obviamente
dirigiu ao povo russo. Aqueles que tendem a considerar o Czar e a sua
família como pertencendo exclusivamente a um enclave étnico são
incitados considerar o seguinte (excerto "da Vida Ortodoxa,"
Agosto-Julho de 1966):
"São os Mártires Imperiais de significado apenas para os russos? Eles
realmente possuem de fato um significado especial aos fiéis russos e
servem como uma lembrança constante da oposição irreconciliável e
imortal entre a Ortodoxia da Rússia e o estado comunista da URSS, mas os
seus significados como Mártires e Sofredores inocentes em Cristo
transcendem qualquer determinação do contexto nacional, e de muitas
maneiras eles fornecem exemplos dignos de vida Ortodoxa e piedade que
pode ser feita por todos. E o seu sofrimento inocente, a humilhação
profunda, e a morte cruel de fato devem evocar a compaixão de cada um da
consciência cristã em todo lugar no mundo."
"Também, podemos evocar que a língua que eles usavam era a inglesa e o
seu sangue predominantemente não-russo!... [Desde então Imperatriz
Alexandra como a sua sogra, eram convertidas] isto coloca os Mártires
Imperiais em uma relação especialmente sólida com os ortodoxos
convertidos e os de língua inglesa, revelação da natureza universal da
Santa Ortodoxia e mostrando que (a piedade Ortodoxa e a condenação, até
para o martírio, são presentes do Espírito Santo que transcendem
'sangue', língua, e outras características herdadas...).
Já que para Cristo não existe diferença do Grego do Judeu e do Livre.
Respondendo a dúvidas
Durante as preparações para a glorificação formal dos Novos Mártires da
Rússia, a crítica foi expressada como sendo a inclusão da Família Real
no seu meio, como sendo originada de um sentimento nacionalista ou
monarquista romântico. Possivelmente esta dúvida repercute agora mesmo
nas mentes de alguns leitores deste artigo. Por isso, estamos
acrescentando as palavras de um "mártir" contemporâneo na União
Soviética, Pe. Dimitri Dudko, que dá a razão para que de todos nós -
russo e não-russo - venerarmos o Czar.
"Quando em resposta às fabricações caluniosas do Jornal Literarny,
trouxe a tona à memória radiante e destemida dos camponeses russos
martirizados e da nobreza, que foram fuzilados, estrangulados, e quando
falei do Czar Russo que foi morto a tiro com toda a sua família e
empregados, chamando-o de um dos maiores santos da terra russa, as vozes
da acusação choveram sobre mim do exterior - do mundo livre diziam: 'O
que você está fazendo? Será difícil defendê-lo. Por que você achou
necessário incluir essas passagens monarquistas?'...".
"O Czar Russo Nicolau II está nas primeiras filas dos mártires russos.
Mas quando você o menciona, todo o mundo por alguma razão se lembra dele
como um soberano. Não quero falar sobre o seu reino, embora, em
comparação com outros, cada um pode comentar a respeito. Mas falo agora
dele como um cristão, como um mártir de Cristo, como um Comandante [no
Exército] de Cristo. Vamos colocá-lo no caminho, finalmente."
"Ainda temos muitas paixões políticas e egoístas... Leia o livro de
Gilliard [1] - um homem que não é da origem russa. Ele não pode ser
acusado de preconceito. Ainda escreveu como se ele relatasse a vida de
um santo, e não há nenhuma ficção, conheço pessoas que tinham um
preconceito sobre o Imperador, mas depois de ler este livro começaram a
considerá-lo um santo. E eu não posso considerá-lo pessoalmente de outra
maneira. Para mim, ele é um santo e, além disso, um dos maiores santos."
"Quando você lê o livro de Gilllard, considere como ele rezou, e compare
isto com como rezamos. Considere como ele confiou a si mesmo e todos os
seus amados à vontade de Deus, como ele exerceu uma influência tão
benéfica naqueles que o guardavam que foi necessário mudá-los
constantemente. E considere como ele sofreu quando olhou para as armas
apontadas para ele. O seu sofrimento teria sido mais fácil se ele
tivesse estado ante a mira sozinho, mas com estava com sua esposa, o
czarevich doente, suas filhas, os seus empregados... Sim, e a maioria da
Rússia inteira, também. Os rifles chequistas foram apontados para todo
os russos, e não só para ele. Penso que naquele momento ele foi alarmado
por toda Rússia, e possivelmente pelo o mundo inteiro, já que essas
armas do ímpio agora ameaçam a todos os cantos da terra. E depois disto
não devemos chamá-lo de santo?!"
(Excerto de "Vida Ortodoxa", Setembro.-Outubro 1978)
[1] Pierre Gilllard, tutor francês das Grã-Duquesas, escreveu as suas
memórias,Treze Anos no Tribunal Russo; Doran, 1921.