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Por São Justino (Popovich), Arquimandrita de Chelije

Tradução de André Borges
Os homens condenaram Deus à morte; Deus, no entanto, sentenciou-os, por meio de Sua Ressurreição, à imortalidade. Em troca de seus safanões, Ele lhes oferece abraços; por seus insultos, bênçãos; pela morte, imortalidade. Os homens nunca mostraram tanto desprezo por Deus como quando O crucificaram; e Deus jamais mostrou tanto amor pela humanidade como Ele o fez ressuscitando. Os homens querem fazer de Deus um mortal, mas Deus, por meio de Sua Ressurreição, planejou torná-los imortais. O Deus crucificado ressuscitou e venceu a morte. A Morte não é nada. A Imortalidade apossou-se do homem e de todo o seu mundo.
Por
meio da Ressurreição do Deus-Homem, a natureza do homem foi levada
irremediavelmente para o caminho da imortalidade, e a morte tornou-se,
assim, temerosa. Pois, antes da Ressurreição de Cristo, a morte era algo
temido pelo homem; mas, depois da Ressurreição do Senhor, o homem
tornou-se algo temível para a morte. Se um homem vive na Fé no
Deus-Homem Ressuscitado, ele vive além do alcance da morte. Ele torna-se
inalcançável pela morte. A morte é transformada em um “tapete sob seus
pés”:
“Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó Hades, o teu aguilhão?”
(I Coríntios, 15:55). Assim, quando um homem em Cristo dá seu último
suspiro, ele perde apenas a casca de seu corpo, a qual vestirá novamente
no dia da Segunda Vinda.
Até a Ressurreição do Cristo Deus-Homem, a morte era a segunda natureza do homem; a primeira era a vida, a segunda era a morte. O homem acostumou-se à morte como algo natural. Mas com a ressurreição do Senhor, tudo mudou: a imortalidade tornou-se a segunda natureza do homem. Tornou-se algo natural para o homem, enquanto a morte torna-se antinatural. Exatamente como antes da Ressurreição de Cristo era natural para o homem ser mortal, agora é natural que o homem seja imortal.
Por meio do pecado, o homem tornou-se mortal e limitado; por meio da Ressurreição do Deus-Homem, ele torna-se imortal e eterno. Precisamente nisso repousa o poder, o domínio e a onipotência da Ressurreição de Cristo. Além disso, sem a Ressurreição de Cristo não haveria a Cristandade. Entre os milagres, o maior de todos é a Ressurreição do Senhor. Todos os outros milagres provêm da Ressurreição e giram em torno dele. Dele advém fé, amor, esperança, prece e o julgamento de Deus. Os apóstolos fugitivos, aqueles que fugiram para longe de Jesus quando Ele morreu, voltaram a Ele quando ele ressuscitou. E o centurião romano, quando viu Cristo ressuscitado de sua tumba, confessou que Ele era o Deus-Homem. Foi assim que os primeiros Cristãos tornaram-se Cristãos – porque Cristo ressuscitou, porque ele dominou a morte. Isso é algo que nenhuma outra religião tem; é isso, a Ressurreição, o que exalta Cristo sobre todos os outros homens e sobre todos os outros deuses. É isso que, de maneira única e inquestionável, mostra e prova que Cristo é o único verdadeiro Deus e Senhor de todos os mundos conhecidos e desconhecidos.
Pela graça da Ressurreição de Cristo, pela graça de Seu domínio sobre a morte, os homens tornaram-se, tornam-se agora, e tornar-se-ão Cristãos no futuro. Toda a história do Cristianismo nada mais é do que um único milagre, o milagre da Ressurreição de Cristo, que está eternamente contido nos corações dos Cristãos, dia após dia, ano após ano e era após era, até a Próxima Vinda.
O homem nasce verdadeiramente não quando sua mãe lhe dá à luz, mas quando ele começa a acreditar no Salvador Ressuscitado, Cristo; nesse momento ele nasce para a imortalidade e vida eterna, enquanto a mãe traz a criança apenas para a morte, para a sepultura. A Ressurreição de Cristo é a mãe de todos nós, Cristãos – a mãe de todos os que não morrem. Por meio de sua fé na Ressurreição de Cristo, o homem nasce de novo, para a eternidade.
Isso é impossível, responde o cético. E o Deus-Homem Ressuscitado responde: “Tudo é possível ao que crê”.(São Marcos, 9:23). E aquele que acredita é o que, com todo seu coração, com toda sua alma e com todo o seu ser, vive de acordo com o Evangelho do Senhor Jesus Ressuscitado.
Nossa fé é a vitória na qual dominamos a morte; fé, isto é, no Senhor Ressuscitado. “Onde está, ó morte, tua vitória? Onde está, ó Hades, teu aguilhão?” “O aguilhão da morte é o pecado” (I Coríntios, 15:55-56). Por meio de Sua Ressurreição, o Senhor removeu o aguilhão da morte. A morte é serpente e o pecado é seu aguilhão. Através do pecado, a morte injeta seu veneno no corpo e na alma dos homens. Quanto mais pecados o homem tem, mais poderoso é o aguilhão pelo qual a morte injeta seu veneno nele.
Quando uma vespa ferroa alguém, essa pessoa faz todo o possível para extrair o ferrão de seu corpo. Mas quando é ferroado pela morte – esse aguilhão do Hades -, o que deveria fazer? Ele tem, com fé e prece, que pedir ao Salvador Ressuscitado, Cristo, que Ele possa tirar de sua alma o aguilhão da morte. E Ele, cheio de compaixão como Ele é, assim o fará, pois Ele é o Deus da Misericórdia e do Amor. Quando muitas vespas atacam o corpo de um homem e o ferem com seus ferrões, esse homem fica envenenado e morre. O mesmo acontece quando um homem é ferido por diversos aguilhões de muitos pecados. Ele que não ressuscitou do pecado sucumbe à morte.
Conquistando o pecado dentro de si por meio de Cristo, um homem derrota a morte. Se um único dia passou e você não conseguiu ainda derrotar sequer um de seus pecados, veja que você se tornou mais mortal ainda. Se, entretanto, você livrou-se de um, dois, ou três de seus pecados, você tornou-se enormemente renovado naquilo que jamais envelhece: imortalidade e eternidade. Nunca nos esqueçamos que, para alguém crer em Cristo, significa que tem que lutar incessantemente contra o pecado, o mal e a morte.
Um homem demonstra que crê verdadeiramente no Senhor Ressuscitado por meio de sua luta árdua contra as paixões e contra o pecado; e se ele lutar arduamente, ele pode ter certeza de que está lutando pela imortalidade e pela vida eterna. Se ele não se dedicar arduamente, então sua fé será em vão. Por que, se a fé de um homem não é a luta pela imortalidade e a eternidade, então o que é? Se pela fé em Cristo alguém não busca a imortalidade e a vitória sobre a morte, então qual é a finalidade da fé? Se Cristo não ressuscita, isso significa que o pecado e a morte não foram derrotados. E se essas duas coisas não foram dominadas, então por quê deveria alguém crer em Cristo? Entretanto, aquele que, através da fé na Ressurreição de Cristo, luta arduamente contra cada um de seus pecados, profundamente reforça dentro de si o senso de que Cristo realmente ressuscitou, que Ele de fato removeu o aguilhão da morte, que Ele de fato derrotou a morte em todas as frentes de batalha.
O pecado marca profundamente o homem, leva-o para perto da morte, e o transforma de algo imortal em mortal, de algo incorruptível e ilimitado em algo corruptível e cheio de limitações. Quanto mais pecados uma pessoa tem, mais mortal ela se torna. E se um homem não se sente imortal, é óbvio que está totalmente preso no pecado, em pensamentos pequenos, em sentimentos mórbidos. A Cristandade é um chamado para a luta árdua até o ultimo alento contra a morte, ou seja, até a vitória final sobre a morte. Cada pecado é uma queda, cada paixão é uma traição, cada mal leva a uma derrota.
Jamais alguém deveria perguntar por que o Cristão sucumbe à morte corpórea. Isso se dá porque a morte do corpo e um tipo de semeadura. O corpo mortal é semeado, São Paulo nos diz (veja I Coríntios, 15:42), e é cultivado no poder, tornando-se imortal. Como a semente que é semeada, assim também o corpo se dissolve, para que o Espírito Santo possa dar-lhe vida e fazê-lo perfeito. Se o Senhor não tivesse ressuscitado no corpo, que benefício teríamos nisso Dele? Ele não teria salvado o homem inteiro. Não tivesse Ele ressuscitado o corpo, então porque Ele se fez carne? Por que Ele tomou um corpo para Si, se não foi para dar-nos Sua Divindade?
Se Cristo não ressuscitou, por que deveria alguém crer n’Ele? Eu confesso sinceramente que jamais teria tido fé em Cristo, se Ele não houvesse ressuscitado, não tivesse Ele derrotado a morte, nosso grande inimigo. Mas Cristo ressuscitou, e Ele nos deu a imortalidade. Sem essa verdade, nosso mundo não seria nada senão uma visão caótica de ignorância odiosa. Somente com Sua gloriosa Ressurreição nosso maravilhoso Senhor e Deus nos libertou do desespero e falta de sentido. Pois sem a Ressurreição, não há nada mais sem sentido nos céus ou sob eles que o mundo atual; nem há maior desespero que esta vida sem imortalidade. Por essa razão, em todo o mundo não há ser mais infeliz que um homem que não crê na Ressurreição de Cristo na ressurreição dos mortos (veja I Coríntios, 15:19). “Melhor lhe fora não haver nascido” (São Mateus, 26:24).
Em nosso mundo secular, a morte é o maior de todos os tormentos e a coisa mais horrivelmente cruel. Liberdade desse tormento e crueldade é precisamente o que a salvação nos dá. Tal salvação foi dada à humanidade somente pelo Vencedor da Morte, o Deus-Homem Ressuscitado. Por meio de Sua Ressurreição, Ele nos revelou todo o mistério de nossa salvação. Salvação significa ter a imortalidade e a vida eterna garantidos para o corpo e para a alma. Mas como conseguimos isso? Somente na vida do Deus-Homem, na vida da Ressurreição, por meio do Cristo Ressuscitado.
Para nós, Cristãos, a vida nesta terra é uma escola na qual aprendemos como garantir para nós a imortalidade e a vida eterna. Pois de que benefício seria esta vida, se não podemos chegar à imortalidade nela? Mas para um homem ser ressuscitado com Cristo, ele tem primeiro que morrer com Ele e viver a vida de Cristo como se fosse a sua própria. Se ele assim o fizer, então no Dia da Ressurreição ele poderá dizer, junto com São Gregório o Teólogo: “Ontem eu fui crucificado com Cristo, hoje eu sou glorificado com Ele; ontem eu morri com Ele, hoje eu nasci com Ele; ontem eu fui sepultado com Ele, hoje eu ressuscitei com Ele”.
E em umas poucas palavras podemos resumir os quatro Evangelhos de Cristo: “Cristo Ressuscitou! De fato, Ele Ressuscitou!”. Em cada uma dessas palavras pode-se encontrar o Evangelho de Cristo, assim como se pode encontrar todo o conhecimento de todo o mundo de Deus, tanto o conhecido como o desconhecido, nos quatro Evangelhos. E quando os sentimentos do homem, junto com todos os seus pensamentos, estão centrados no som estrondoso da saudação Pascal, “Cristo Ressuscitou!”, então a alegria da imortalidade move todas as coisas, e todas as coisas em júbilo proclamam o milagre Pascal: “De fato, Ele Ressuscitou”.
Sim, Cristo de fato ressuscitou! E uma testemunha disso é você; eu sou uma testemunha; todo Cristão é uma testemunha disso, começando pelos Apóstolos e chegando até a Segunda Vinda. Porque somente o poder do Cristo Deu-Homem Ressuscitado pode dar – e dá continuamente agora e dará continuamente no futuro – o poder para cada Cristão, do primeiro ao último, de vencer tudo que é mortal, e assim a própria morte; tudo que é pecaminoso, e assim o próprio pecado; e tudo que é demoníaco, e assim o próprio demônio. Pois simplesmente por Sua Ressurreição, o Senhor, da maneira mais convincente, mostrou e provou que Sua vida é a Vida Eterna; Seu amor, Amor Eterno; Seu bem, Bem Eterno; Sua verdade, Verdade Eterna; Seu júbilo, Júbilo Eterno. Ele também mostrou e demonstrou que todas essas coisas que Ele dá, em seu incomparável amor pela humanidade, para cada Cristão, em qualquer era.
Com respeito a essas coisas, não há um único acontecimento, não apenas nos Evangelhos, mas em toda a história da humanidade, para o qual maior testemunho tenha sido dado, de uma maneira tão poderosa, tão indubitável e tão indiscutível quanto a Ressurreição de Cristo.
Sem dúvida, a Cristandade, em toda a sua realidade histórica, em toda a sua força e onipotência histórica, foi estabelecida sobre o fato da Ressurreição de Cristo, ou seja, na Hypostasis do Cristo Deus-Homem na Vida Eterna. E para isso toda a extensa e sempre miraculosa história que a Cristandade testemunha.
Realmente, se há um fato com o qual alguém poderia resumir todos os eventos na vida de Cristo e dos Apóstolos, mais geralmente em toda a vida da Cristandade, esse fato será a Ressurreição de Cristo. Mais ainda, se há uma realização que resuma todas as realizações do Novo Testamento, essa seria a Ressurreição de Cristo. E, finalmente, se há um milagre nos Evangelho que possamos dizer que resume todos os milagres relatados no Novo Testamento, esse milagre é a Ressurreição de Cristo. Pois somente à luz da Ressurreição a pessoa de Jesus Cristo e Seu miraculoso trabalho podem ser conhecidos. Somente à luz da Ressurreição os milagres de Cristo, todas as Suas verdades, todas as Suas palavras e todos os eventos do Novo Testamento são totalmente explicados.
Até a hora da Sua Ressurreição, o Senhor ensinou sobre a vida eterna; mas na Ressurreição Ele nos mostrou que Ele Mesmo é Vida Eterna. Até a hora da Sua Ressurreição, Ele ensinou sobre Ressurreição da morte; mas na Ressurreição Ele mostrou que Ele Mesmo era de fato a ressurreição dos mortos. Até a hora da Sua Ressurreição, ele ensinou que crer n’Ele nos levava da morte à vida; mas na Sua Ressurreição ele mostrou que Ele Mesmo venceu a morte e assim assegurou àqueles afligidos pelo morte a passagem da morte à ressurreição. Sim, sim, de fato: o Deus-Homem Jesus Cristo, com Sua Ressurreição, mostrou e demonstrou que Ele é o único verdadeiro Deus, o único Deus-Homem em toda a humanidade.
E, além disso: sem a Ressurreição do Deus-Homem, seria impossível explicar o testemunho dos Apóstolos, ou o martírio dos Mártires, ou a confissão dos Confessores, ou a santidade dos Santos, ou as ações ascéticas dos Eremitas, ou as bem-aventuranças dos Bem-aventurados, ou a fé dos Fiéis, ou o amor dos que amam, ou a esperança dos que têm esperança, ou a prece dos que oram, ou o arrependimento dos arrependidos, ou a misericórdia dos misericordiosos, ou quaisquer virtudes ou ações Cristãs. Não tivesse o Senhor subido aos céus como o Ressuscitado e não tivesse Ele provido seus Apóstolos com o poder de dar a vida e a sabedoria milagrosa, o que poderia juntar esses homens covardes e fugitivos, dando-lhes a coragem e a força e a sabedoria para destemidamente pregar e confessar o Cristo Ressuscitado e seguir com tal júbilo até a morte em Seu nome? E se o Salvador Ressuscitado não os tivesse provido com seu divino poder e sabedoria, como poderiam esses homens simples, pobres e ignorantes ter acendido no mundo a chama inextinguível da fé do Novo Testamento? Se a Fé Cristã não fosse uma fé na Ressurreição e, como conseqüência, na Vida Eterna e no Senhor Vivificante, quem teria sido capaz de inspirar os Mártires no caminho do Martírio, os confessores no caminho da Confissão, os Eremitas no caminho do ascetismo, os Desapegados no caminho da pobreza, os Jejuadores no caminho da abstinência e qualquer Cristão no caminho da Cristandade?
Por isso é que todas essas coisas são verdadeiras para mim e para todos os seres humanos – por meio da Ressurreição de Cristo. O Maravilhoso e Doce Jesus Cristo, o Deu-Homem Ressuscitado, é o único Ser sob os céus em quem os homens aqui na terra podem derrotar a morte e os pecados e o demônio e receber a benção e a imortalidade – tornando-se um membro, de fato, do Reino Eterno do Amor de Cristo. Para o ser humano, o Cristo Ressuscitado é a totalidade de tudo em toda a humanidade: tudo o que é Belo, Bom, Verdadeiro, Precioso, Harmonioso, Sagrado, Sábio e Duradouro. Ele é todo o nosso Amor, toda a nossa Verdade, todo o nosso Júbilo, toda a nossa Vida, a Vida Eterna em todas as sagradas eternidades e infinitos.
