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O PREÇO DA SANTIDADE
MEMÓRIAS DO ARCEBISPO JOÃO MAXIMOVITCH
Por Abade Germano
Traduzido por Pedro Ravazzano
"Eu não morrerei, viverei e contarei a obra do Senhor" (Salmo
117:17).
Antes de estar no seminário, tive notícias do Arcebispo João, mas apenas
como João de Xangai. Eu não freqüentava os círculos dos que o conheciam
e nem sequer sabia que ele não vivia mais na cidade chinesa. Em minha
família havia muita tristeza devido à enfermidades, e que sabia da
existência João de Xangai, de seus curas e ajudas. Entretanto, não
tinhamos idéia de como localizá-lo e muito menos como nos dirigir a ele.
Tampouco pouco sabiamos que ele era bispo. Finalmente conseguimos seu
endereço, e escrevi a ele sobre o meu desejo de ter suas preces. Não
recebi resposta para as minhas duas cartas. Só quando era seminarista no
Seminário da Santíssima Trindade em Jordanville, Nova Iorque, tive a
felicidade de encontrá-lo. Isto ocorreu com a ajuda de meu verdadeiro
benfeitor o Pe.Vladimir, nas circunstâncias que passo a relatar:
Ícone de São João com o ícone de Nossa Senhora de Kursk, Protetora da Diáspora Russa
Era novembro de 1959. Os seminaristas estavam preparando o onomástico de
São João de Kronstadt. A canonização deste verdadeiro virtuoso foi
longa, embora os preparativos se iniciaram em 1952. Nós esperavamos que
há qualquer momento iria ocorrer a solene glorificação para a alegria de
todos.
Eu tinha como costume ir todas as manhãs ao escritório do Pe. Vladmir
para receber sua bênção do dia. Era uma manhã fria, antes do café da
manhã corri a seu escritório. Abri sua porta com força, que abriu
rapidamente e com um dedo cobrindo seu lábio em sinal de silêncio ele me
surpreendeu ao dizer que o Arcebispo João havia chegado da Europa na
noite anterior. Ele fechou a porta atrás de mim, tomou fôlego e me
relatou o seguinte, que me deixou em estado de surpresa e inspiração
espiritual:
Ícone de São JOão e sua vida
Na madrugada da noite anterior ele tinha visto da janela de sua cela,
que estava no quarto andar com vista para a igreja, a chegada de um
carro e a imagem familiar da figura pequena e encurvada do Arcebispo
João descendo. Primeiro, o Arcebispo João se dirigiu à igreja
acompanhado de vários de nossos padres. Uma leve neve cobria a terra e o
Pe. Vladimir pôde ver claramente que o Arcebispo usava apenas sandálias,
como o vento era forte, ele viu as pernas nuas do Vladyka no frio de
novembro de Nova Iorque. Como era tarde, o Pe. Vladimir ordenou que
todos fossem para cama e que só pela manhã saudassem o o bem-vindo
hóspede. Com um sentimento de gratidão a Deus, ele foi até o ícone e
continuou suas orações monásticas. Ele não conseguia dormir devido à
excitação interna, quando na quietude da noite escutuou alguém caminhar
lentamente no andar inferior, parando a cada cinco passos e retomando
sua caminhada. O Pe. Vladimir escutou os passos subindo as escadas de
degraus de cimento, e estes passos eram cada vez mais fortes. Logo ele
os escutou no quarto andar, perto de sua porta. Sabia que era o
Arcebispo João que parava na porta da cela de cada um dos monges para
orar e dar sua bênção. Todos estavam dormindo. O coração do Pe. Vladimir
palpitava quando lentamente o Santo hierarca parou na frente de sua
porta. O Pe. Vladimir segurou o fôlego parado em frente à porta fechada,
e sentiu o cuidado e amor que o Arcebispo João sentia por cada um dos
membros do monastério e do seminário. Quando os passos passaram a
centímetros da porta, o Pe. Vladimir aproveitou a oportunidade para orar
pelos desafortunados e necessitados. Logo, lentamente continuaram os
passos, parando na porta de cada irmão e desaparecendo até que
finalmente desceu ao piso inferior, e ele já não os escutava.

Observando da sua janela, o Pe. Vladimir viu o Santo hierarca visitar
todos os edifícios do monastério onde morava a irmandade: o celeiro
afastado, o edifício do seminário do outro lado da rua… e logo, para sua
surpresa, os passos novamente começaram a subir as escadas, e novamente
o Arcebispo João caminhava com lentidão pelos largos corredores do
edifício principal e assim continuou durante toda noite. Pela manhã, o
Arcebispo celebrou a liturgia, e benzeu a todos os que se aproximavam
pedindo sua oração.

Logo que o Pe. Vladimir terminou de relatar a experiência da noite
anterior, ele me disse que estava escutando novamente aqueles passos
familiares e que essa seria a minha chance. Se o Bendito João fosse
entrar no escritório agora, o Pe. Vladimir disse-me que era para mim
pedir as preces pela minha irmã doente. E que ao vê-lo, eu deveria me
ajoelhar diante dele, pedir sua bênção, e dar o nome do doente por
escrito e uma pequena doação para o orfanato do Bispo. Quando disse que
não tinha dinheiro, o Pe. Vladimir tirou de seu escritório um par de
dólares. De repente a porta que estava atrás de mim abriu, e o Pe.
Vladimir disse com alegria " Santo Vladika, nos dê sua bênção!" Dei uma
volta, e vi um pequeno monge curvado, com cabelo branco despenteado, com
um klobuk torcido, de cor negra e uma expressão muito austera. Na
verdade, sua aparência austera era quase desumana, enquanto estava
parado justo em frente a mim, com o ar invernal ainda emanando dele,
fiquei estremecido. Eu sabia que estava diante um santo de outro mundo,
um mártir vivo da Rússia crucificada. Eu conhecia muito pouco de sua
vida e de seus milagres e trabalhos ascéticos, mas sentia que algo forte
e extraordinário se concentrava nele, um ancião curvado, mas ainda assim
enérgico.
Recordei-me das palavras do Pe. Vladimir sobre a maneira que devia me
dirigir ao Santo hierarca, ajoelhei-me diante ele, pedi sua bênção e com
temor e pressa pedi que rezasse pela minha irmã. Não havia ninguém mais
com ele, o que me foi menos aterrorizador, já que suas primeiras
palavras foram um resmungo por eu ter me ajoelhado. Sem me olhar, ele
repetiu três vezes que devia escrever o nome de minha irmã em um papel e
rechaçou os dois dólares que deixei em suas mãos. Não lembro o que
aconteceu em seguida, pois senti temor e comecei a gaguejar. Ao ver
minha confusão e ao sentir o suor das minhas mãos, ele olhou com um
sorriso que me assegurava que tudo estava bem. Entendi que o conselho do
Pe. Vladimir de me ajoelhar, não era de seu agrado, e alegrei-me ao
escutá-lo dizer o nome da minha irmã três vezes. Ele tirou de seu bolso
algumas notas com pedidos de orações e adicionou a elas uma pequena nota
que o Pe. Vladimir escreveu rapidamente para deixar em minhas mãos. Logo
ele fez algumas pergunta sobre mim, também quis saber se eu iri assistir
com os outros seminaristas ao serviço do dia seguinte na igreja em
Utica, Nova Iorque dedicado a São João de Kronstadt. Depois de umas
palavras com o Pe. Vladimir, que lhe entregou nossas últimas publicações
e de uma discussão que surgiu, o Bispo partiu.
Sentia alegria em minha alma por ter conseguido conversar com um Santo,
voltei-me para o Pe. Vladimir para que ele me contasse algo mais sobre o
Arcebispo João, mas não escutei nada do que meu apreciado benfeitor Pe.
Vladimir me disse. Estava sob os efeitos da comoção de ter encontrado um
homem que não era deste mundo. Foi por meio da boa vontade do Pe.
Vladimir que encontrei o meu pai espiritual de Optina, Pe. Adriano; um
athonita, o Schemamonge Nikodim da Karoulia; e minha futura ligação no
Alasca com São Germano, Arquimandrita Gerasin; e finalmente o Arcebispo
João que poucos anos depois seria o fundador da Irmandade São Germano.
Naquela tarde, o Pe. José, nosso diretor do coral, estava selecionando
os melhores cantores para ir a Utica cantar a divina liturgia em honra
do onomástico de São João Kronstadt. Como não possuía grandes talentos
musicais, tinha pouca esperança de que me selecionassem, mas para minha
grande surpresa, o padre José me escolheu como um "adequado" barítono, e
me senti feliz por ser escolhido e de poder escutar o sermão do
Arcebispo João.
Chegamos cedo e pudemos cantar toda a Liturgia bem e sem erros. Minha
atenção esteve fixa na peculiar figura do Bendito João, que parecia
ainda menor que da primeira vez que o encontrei no escritório. Quando
lhe punham as vestimentas, no subsolo da igreja, observei que ele estava
extremamente enfraquecido, era muito pouco o que cobria seus ossos,
exceto o que parecia um estômago proeminente, mas que era na verdade uma
bolsa com seus pertences. Nela ele levava um ícone de aproximadamente 30
cm. emoldurado em veludo púrpura, com as relíquias de seu distante
parente e santo padroeiro, São João Maximovitch de Tobolsk, e que também
levava outros objetos como seu epitrachelion, punhos litúrgicos, etc.
Sua batina era azul brilhante feita com um tecido da China. As
vestimentas que cobriam sua batina também eram peculiares, embora
correspondessem a um líder, eram de linho branco com pequenas cruzes
púrpuras e laranjas bordadas em toda sua extensão, dava a impressão de
que tinham sido bordadas por seus órfãos de Xangai. Sua mitra não era
redonda e brilhante, não tinha o esplendor das usadas pelos patriarcas,
mas sim era singela, podia ser dobrada para ser levada em suas viagens,
parecia-se mais a uma boina de monge de forma estranha. Era também
branca e com pequenas cruzes de linho púrpura e laranja e tinha pequenos
ícones de papel pregados nos quatro lados. Toda a vestimenta era mais
larga que sua própria estatura, seu cabelo despenteado, a expressão de
seu rosto era de irritação, seu lábio inferior cansado e seus pequenos
olhos negros freqüentemente fechados. Mas o pior foi o seu sermão, não
pude compreender nenhuma oração de seu sermão. Entendi que combinava o
significado de São João de Konstadt, São João de Rila, o Santo profeta
Joel, Cleópatra e seu pequeno filho João, e contava como João cuspiu no
seu torturador que o matou diante os olhos de sua mãe. Ele também falou
da ressurreição de Cristo. Dei-me conta de que o sermão era profundo,
porque mencionou partes de tropários e kontakion. Por mais que me
esforcei e prestei atenção, não consegui compreender seu sermão.

Vladyka João chegando nas Filipinas
A maior
surpresa, entretanto, foi durante a procissão ao redor da igreja com a
bênção da água. Quando ele jogava água benta, ele se dirigia
principalmente aos coroinhas. Os jovens sentiam que eram o centro de sua
atenção e se orgulhavam de receber a santificação de seu amado pastor.
Voltei para o seminário em um estado de profunda satisfação, como se um
impacto marcasse minha vida. O Arcebispo João retornou à França, e eu
pensava que não o veria nunca mais, mas depois de minha graduação,
misteriosamente me chamaram para servir na igreja na Califórnia, graças
a seu especial chamado.
Dois anos mais tarde, no verão de 1961, o dia da minha graduação no
seminário, parti em uma peregrinação ao lar de São Germano e às
relíquias santas no Alasca. Tinha-me dado a bênção o Metropolita
Anastásio, que me disse: "Deus te abençoe, veja e se prostre em nosso
nome diante do Apóstolo Germano, já que nossa idade avançada nos impede
de viajar. Reze por nós ali e leve nossa bênção a nosso irmão
Arquimandrita Gerasim". Esta memorável peregrinação me deu um claro
quadro da realidade eclesiástica, e me pôs para o resto de minha vida no
caminho abençoado de São Germano. Antes da minha partida, o Padre
Vladimir benzeu minha viagem com um pequeno ícone dos Santos Sérgio e
Germano de Válamo, que era uma bênção de seu superior, o Padre Philemon
de Válamo. Ele também me entregou cordão de oração que passei a usar.
Tanto o ícone como o cordão foram colocados nas relíquias de São
Germano.
Em minha viagem de volta parei por uma semana na reitoria da igreja em
Seattle em um quarto de hóspedes no segundo andar. Durante minha estadia
perdi me cordão de orações. Em seguida fui ao Canadá visitar o isolado
skete do Santo Arcebispo Josafá. Percorrendo as pradarias canadenses e
visitando os sketes, lamentei ter perdido o cordão de orações, e estava
inconsolável. pois a bênção de Válamo e de São Germano estavam com ele.
Perdi as esperanças de o encontrar e retornei a São Francisco via
Seattle, onde tinha marcado um encontro com o Arcebispo Tikhin, o bispo
Nectário, a Abadessa Ariadne e suas irmãs do convento, para falar do
beneficio da minha viagem ao Alasca. A Abadessa tinha anunciado minha
dissertação no jornal. Esse relato seria muito importante, ela tinha
convidado a todos os alunos de sua escola paroquial e à juventude da
região.
Um dia antes do evento fiquei muito nervoso. A abadessa me perguntou se
eu não me importava em compartilhar meu bate-papo com o Arcebispo João
que tinha chegado da França. Ela também me disse que tinha organizado
uma recepção. Senti-me adulado, mas ao mesmo tempo petrificado de
conversar na presença de alguém tão importante como o Arcebispo João.
Ela me assegurou que era muito amável e simples, e que tinha a alma de
um menino, e se meu relato se desenvolvesse de maneira singela, ele
seria um sucesso.
Cheguei mais cedo do que esperava, logo que cruzei a porta me chamaram
para atender um chamado de Seattle, de meu amigo Jorge Kalfov. Jorge
havia sido coroinha do Arcebispo João em Xangai, o Arcebispo havia o
curado quando ele tinha quatorze anos. Ele me contou muitas coisas do
Arcebispo, mas disse que o Vladyka era constantemente perseguido, o que
demorei para compreender.
Enquanto subia os degraus da igreja, a abadessa Ariadne me chamou. Ao
entrar, vi o Arcebispo João sentado ao telefone, fazendo gestos para que
eu me aproximasse. Deu-me o auricular e a primeira coisa que Jorge me
disse foi: Onde esta seu cordão de orações? admiti que tinha perdido e
que ele era insubstituível. Nesse momento o Arcebispo João, ainda
sustentando o auricular contra meu ouvido, tirou meu cordão de orações
de seu bolso. Jorge me contou que o Arcebispo se hospedou em Seattle, no
meu antigo quarto, foi ali que o encontrou. Ao vê-lo em suas mãos
automaticamente tentei alcançá-lo, ele me deixo tocá-lo, mas logo o
afastou de mim, como se não quisesse dá-lo para mim. E depois disse
"virá comigo a São Francisco para trabalharmos juntos?". Eu concordei e
tentei pegar o cordão, mas ele me olhando nos olhos com um sorriso, o
afastou do meu alcance. Enquanto isso, Jorge, que escutava o que
acontecia, disse-me que com este gesto o Arcebispo me oferecia trabalho
com ele. Reconheci o que estava recebendo da providência divina, como
pouco merecedor de tal grande honra de estar junto do Arcebispo. A
abadessa Ariadne, ao ver isto, confirmou que tinha sido a vontade de
Deus que o Arcebispo encontrasse meu cordão de oração. E Ele não se
equivocou, pois pelo resto da minha vida estive ligado à bênção do
Arcebispo João.
Meu discurso foi um sucesso. Quando finalizei o Arcebispo também
concluiu sua mensagem. Durante a recepção as irmãs do convento, filhas
espirituais do Arcebispo de Xangai, falavam-me dele, eu escutava
enquanto comia pastéis doces, tão feliz como uma cotovia.
Durante a conversa, o Arcebispo insistiu que eu conversasse com seus
antigos órfãos do orfanato de São Tikhon, da rua Balboa, e que entrasse
em contato com a supervisora Alexandrovna Shakhmatova, para marcar a
data do encontro. Sem demora fui visitá-la no dia seguinte, meu encontro
com aquela mulher me deixou uma profunda emoção pelo o resto da minha
vida. A Sra. Shakhmatova era como uma mãe para centenas de meninos. Não
perdia tempo com eles, ela tinha um bom contato psicológico com essas
jovens almas. Fiquei encantado por seu bom senso de humor e sua aguda
percepção sobre os jovens.
Minha preocupação nas viagens era o recrutamento de novos seminaristas
para o seminário da Santíssima Trindade, e eu não deixava de conversar
sobre este tema em todos os lugares. No caso da Sra. Shakhmatova,
entretanto, foi ela que iniciou a conversa, ela falava, eu escutava e
respondia suas perguntas. Eu gostei desde o começo de sua personalidade
dinâmica, queria que eu tomasse parte em seu mundo, via-me como um amigo
potencial para seus órfãos que estavam perdendo a Deus na desalmada
atmosfera americana. Eu também desejava saber mais sobre o Arcebispo
João, mas antes de continuar com essas histórias, ela queria que eu
influenciasse um de rapazes a entrar no seminário. A Sra. Shakhmatova
queria que eu fosse me encontrar no dia seguinte com ele, e assim foi.
Mais tarde, as histórias que ela me contou do Arcebispo me fizeram ver
que ele representava o maior espectro da retidão. Meu estudo de sua vida
se iniciou com a visão da Sra. Shakhmatova. Ela tinha sido testemunha da
exigência ascética do monge em Xangai logo em sua chegada, no dia da
Festa da apresentação da Theotokos ao templo, em 1934, o ano em que
nasci. A Sra. Shakhmatova tinha tido um casamento difícil e foi morar no
orfananto do Arcebispo em Xangai, quase em sua fundação. Seus filhos
também estavam no orfanato. Ela via como o Arcebispo João crucificava a
si mesmo na fundação e administração do orfanato dedicado a seu santo,
São Tikhon de Zadonsk, de quem ele recebia sua inspiração. As condições
de vida eram terríveis e as necessidades dos meninos, cujos pais tinham
escapado do comunismo, eram assustadoras. O jovem Bispo, no começo,
reuniu a um grupo de senhoras de sua paróquia, pediu para eles a
fundação de um comitê, e que alugassem uma casa para abrir um albergue
para órfãos ou meninos de pais necessitados. Nunca foi escrito nada
sobre as histórias do orfanato de São Tikhon. A surpreendente maneira em
que o Bendito João recolhia e alimentava aos meninos requer a habilidade
de um escritor para que as capture para sempre. Muitos meninos estavam
desnutridos, tinham sido abusados e aterrorizados até que o Arcebispo
João os levava a seu albergue e escola. Cada menino tinha uma história
traumática e foram mais de três mil os que viviam no abrigo.
A Sra. Shakhmatova compartilhou algumas comigo. Uma delas sobre um
menino de nome Paulo, que tinha presenciado a maneira de como os
comunistas mataram seus pais, cortando-os em pedaços. O trauma deixou o
menino mudo, ele nem sequer podia pronunciar seu nome. Era como um
bichinho enjaulado, tinha medo de tudo, que apenas cuspia e só confiava
em seus punhos.
Deixaram-no no asilo quando ele não tinha lugar para ir. Como Paulo era
muito medroso, as senhoras pensaram que ele era anormal e o recusaram
por medo que ele assustasse os outros meninos. Quando o Arcebispo João
ficou sabendo disso, ele ordenou que o admitissem e preparou tudo para
recebê-lo. Ninguém sabia que ele era russo e que falava russo, pois o
menino apenas resmungava e uivava como um animal enjaulado. O Arcebispo
João se sentou em frente ao menino que tremia e disse-lhe enquanto o
abraçava: "Sei que perdeste seus pais, mas agora tens um em mim." O
Vladyka disse isso com tanto poder que o menino derramou muitas lágrimas
e sua voz ressurgiu.
Nos bairros pobres de Xangai havia casos em que cães devoravam as
meninas bebês que eram jogadas no lixo. Quando o Arcebispo João escutou
isto, ele mandou a Sra. Shakmatova comprar três garrafas de vodka, e que
o acompanhasse nesses subúrbios, onde era conhecido muito conhecido por
todos os diversos homicídios.Sem temor como sempre, o Arcebispo João
insistiu à horrorizada senhora que o acompanhasse. Ela recordava o
espanto que sentia quando caminhavam na escuridão da noite entre
bêbados, personagens sombrios, miados e latidos de cães. Ela seguarava
as duas garrafas em suas mãos seguindo-o com perturbação, quando escutou
a queixa de um bêbado sentado em uma passagem escura e o gemido de um
bebê dentro de um tacho. O bispo se apressou para o lugar de onde
provinha o pranto, o bêbado resmungou em sinal de advertência. "me passe
a garrafa", disse o bêbado à Sra. Shakhmatova. Ela mostrou a garrafa e
com a outra mão tatiava o lixo. O bendito João, sem necessidade de
palavras, tinha irradiado sua mensagem com a proposta de troca. A
garrafa terminou nas mãos do bêbado e a Sra. Shakhmatova salvou o bebê.
Nessa noite eles voltaram para orfanato com dois bebês. Tamanha valentia
ocorreu sem uma profunda luta interior.
Desde jovem o Bendito João nunca comia durante o dia. Após a liturgia,
comungava, passava uma hora em silencio no altar lavando os recipientes.
Depois visitava os hospitais e os cristãos ortodoxos, assim como os não
ortodoxos, mas entretanto, desejavam vê-lo. Dava a comunhão e bênção aos
doentes. Às vezes oferecia uma Divina Liturgia em hospitais, em vários
idiomas segundo os pedidos: grego, árabe, chinês e posteriormente em
inglês. Jantava sozinho depois da meia-noite e nunca se sentava,
tampouco apoiava suas costas no respaldo das cadeiras. Às vezes o
esforço o dobrava e ele acabava dormido. Durante sua vigília, ele sempre
rezava pelos que pediam e freqüentemente suas preces recebiam resposta
imediatas. Já era então conhecido como grande taumaturgo.
Uma vez, no meio da noite, a Sra. Shakhmatova subiu ao campanário, no
último andar. Quando ela abriu a porta, viu o Bendito João parado em
profunda oração, tiritando ao ar livre, benzendo as casas de seus
paroquianos. Ela pensou, "enquanto o mundo dorme, ele vigia como
Habacuque, cuidando seu rebanho com a fervente intercessão de Deus para
que nenhum dano possa ocorrer. Profundamente comovida, ela saiu. Assim
ela descobriu o que o santo fazia durante as longas noites invernais.
Por que isso era necessário? Perguntou-me a Sra. Shakhmatova, "quem o
pedia isso?" Por que tanto sacrifício quando sua presença era necessária
em tantos outros lugares? Para minha surpresa ela mesma deu a resposta:
"Ele tem um inextinguível amor a Deus. Ama-o como Pessoa, como seu Pai e
como seu mais próximo Amigo. Ele desejava falar com Deus, e Deus o
escuta. Não foi um sacrifício consciente. Ele simplesmente ama a Deus e
não quer separar-se dEle"
"Uma vez durante a guerra," continuou, "a pobreza no orfanato alcançou
dimensões tão grandes que não havia nada para alimentar os 90 meninos. O
pessoal se zangava porque o bispo seguia trazendo meninos, alguns com
seus pais. Assim era ele. Uma tarde ele chegou esgotado, com frio e em
silêncio. Não pude resistir, e disse que nós não podíamos tolerar mais a
situação, que não podíamos suportar ver pequenos famintos e não ter nada
para lhes dar. Perdi o controle e elevei minha voz com indignação. Não
só me queixei, como também estava cheia de ira por ele nos ter feito
isso. Ele me olhou com tristeza e disse "O que necessitamos". Respondi
"Tudo, mas ao menos cereais, não tenho nada para lhes dar na manhã".
O Arcebispo João a olhou com tristeza e subiu. Logo em seguida ela
escutou alguém se ajoelhar de maneira tão vigorosa, que até os vizinhos
reclamaram do barulho. Sua consciência estava perturbava, essa noite ela
não conseguiu dormir. Conseguiu cochilar um pouco pela manhã quando a
campainha tocou. A senhora abriu a porta e em sua frente estava um
cavalheiro inglês que representava uma companhia de cereais, que havia
tido uma sobra de grãos. Começaram a entrar sacos e sacos de cereal,
quando o bendito João desceu as escadas. Logo que pôde a senhora
Shakhmatova falou com ele. Ele não disse uma palavra, com o olhar
reprovou sua falta de fé. Ela respondeu que iria se ajoelhar e beijar
seus pés, mas o Bispo já havia se retirado para rezar a Deus em
agradecimento.
Depois de me contar esta história, a Sra. Shakhmatova me falou novamente
do jovem que ela queria que eu levasse ao seminário. Ela me pediu um
cuidado especial com ele. Este moço, disse-me, teve uma infância difícil
e sempre teve uma inclinação mística. Sempre estava tranqüilo,
meditabundo e triste. Enquanto outros moços saiam para jogar, ele fica
olhando à distância. Várias vezes lhe perguntei em que pensava e sempre
tive a mesma resposta: "Em Deus". Este jovem estava designado a ser
religioso.
O descobrimento deste jovem foi uma longa história Um dia, o Arcebispo
João mandou a Sra. Shakhmatova se preparar para ir numa casa de
prostituição. Horrorizada, ela se negou, mas com um sorriso ele disse
que deveriam ir. Uma senhora russa se dedicava a este ofício e tinha
dois meninos necessitados de tudo e que viviam com ela no hotel. A
menina tinha 6 anos e seu irmão 9. Eles deveriam sair daquele ambiente.
Quando chegaram foram direto ao quarto da senhora. Nesse momento ela não
se encontrava, mas o menino estava sentado ali, sem uma escola para ir,
sem mantimentos. Disseram ao menino para ir com eles dizendo que tinham
um orfanato onde havia mantimentos, uma escola e um lugar para brincar.
Eles convenceram o garoto, mas a mãe chegou, e protestou com indignação,
insultando-os. Entretanto, eles conseguiram resgatá-lo, deixando à
pequena com sua mãe.

São João no velório do Vladyka Leôncio
Como mencionei antes, reuni-me com este jovem no dia seguinte após a
conversa com a Sra. Shakhmatova. Ele reagiu positivamente quando lhe
sugeri ir ao seminário. Ali trabalhou como tipista, onde completou os 5
volumes da Philokalia em russo. Mais tarde ele foi para Grécia, onde
virou monge.
Era um típico dia de São Francisco, ensolarado e frio. Depois de receber
a comunhão caminhamos durante um longo tempo até um departamento no
subsolo. Foi ali onde conheci quem seria meu futuro sócio, Eugênio Rose,
mais tarde Pe. Serafim. Em menos de um ano Eugênio converteu à
Ortodoxia, e uns meses mais tarde virou filho espiritual do Arcebispo
João, que o ordenou leitor das sagradas escrituras um ano antes de seu
eterno descanso. Freqüentemente me perguntei se o Arcebispo João e a
senhora Shakhmatova tivessem tido medo de manchar-se com a vergonha de
entrar em uma casa de pecado para salvar almas perdidas, neste caso, eu
não teria encontrado o Padre Serafim, tampouco teríamos conhecido seus
escritos. É obvio, o Arcebispo João, como um verdadeiro servo de Deus,
sabia o que estava fazendo. Através de seu amor bondoso a Deus e aos
homens, o Padre Serafim pôde oferecer seus talentos ao Senhor.
Segundo a senhora Shakhmatova, o Arcebispo João não era um fanático
eclesiástico, não acreditava em jurisdições. Quando chegou à Xangai,
havia ali muitas denominações eclesiásticas. Ele uniu todas elas, e
servia em todos os lugares, era acessível e amava a todos. Também salvou
muitos. Durante a Segunda guerra mundial, quando estavam na moda as
idéias pró soviéticas e, quando todos os bispos russos no longínquo
oriente aceitaram o patriarcado de Moscou, o Arcebispo João, como
verdadeiro filho da Igreja Ortodoxa, também comemorou ao Patriarca de
Moscou, Alexis I, mas não deixou de comemorar o sínodo russo a quem
entregou seus votos como bispo. O representante do patriarcado de
Moscou, Arcebispo Victor, ordenou a todos os bispos do longínquo oriente
que não reconhecessem o Metropolita Anastácio, representante da Igreja
Russa no exílio, insistindo deste modo no poder jurisdicional do
Patriarcado. Todos os líderes da Igreja Russa no exílio que estavam na
China cederam a esta ordem, com exceção do Arcebispo João. Ele disse que
só o faria se lhe demonstrassem que era correto renunciar seus votos. Ao
comemorar ambas as Igrejas demonstrou sua aceitação às jurisdições. Por
se recusar a não comemorar o Metropolita Anastácio, o Vladyka foi
expulso de sua própria catedral em Xangai, mas mesmo assim continuou com
a liturgia, em frente às portas fechadas da catedral, rogando pela
direção de ambas as Igrejas. Embora não se preocupasse com temas de
jurisdição, o Arcebispo João era ríspido com o clero pouco firme e
indiferente em temas de integridade espiritual. Por isso foi muito
odiado, até tentaram envenená-lo em uma Páscoa, quando ele quase morreu.
A intolerância ao Arcebispo era fruto de inveja e ciúmes. Sua
integridade em questões da igreja, em especial à precisão litúrgica,
indicavam que sua preocupação por seus paroquianos não era assunto
preferivelmente pessoal, mas sim provinha de uma filosofia eclesiástica
de vida, dogmática e pastoral que era parte da sucessão preservada na
Ortodoxia. Era consciente de que vivia e trabalhava por um reino de
outro mundo formado através da história pelos Pais da Igreja, por isso
sentia desprezo pelas expectativas pragmáticas que os tempos e as modas
deixavam.. Era inimigo da moda e da intriga. Sem entender como
trabalhava o Bendito João, é impossível explicar seu comportamento
estranho que o faziam um tolo por amor a Cristo.
Uma vez fui a um jantar ao convite do Arcebispo João, em que presenciei
uma cena difícil de ser aceita como "normal" pelos padrões
contemporâneos de conduta. Eu deveria falar com o Arcebispo sobre a
minha permanência em São Francisco, sobre a formação da irmandade de São
Germano, e também sobre o futuro de Serafim Rose como irmão e sobre a
minha irmã doente mentalmente doente. Eu também queria me confessar. A
Sra. Shakhmatova preparou o jantar de costume: borscht de repolho e um
prato de verduras. Na cabeceira da mesa da cozinha estava sentado o
Arcebispo João, a sua esquerda, contra a parede o Pe. Mitrophan e em
seguida eu. Frente ao Pe. Mitrophan estava o Bispo Savva, de visita a
São Francisco. Atrás do Bispo Savva perto da estufa estava uma senhora
com muita maquiagem que se queixava muito murmurando à Sra. Shakhmatova.
Enquanto tomávamos a sopa observei que o Pe. Mitrophan ria entre dentes
enquanto olhava às mulheres por cima dos ombros do Bispo Savva. Logo,
fiquei horrorizado ao ver que o Arcebispo João se inclinava para seu
prato de tal forma que sua barba se molhava na sopa. Ao invés de levar a
colher à boca, ela a usava deliberadamente para derrubar a sopa com fios
de repolho sobre seu bigode. Eu não podia acreditar o que viam meus
olhos, não havia uma explicação razoável para tal comportamento. O bispo
Savva que não podia ver as mulheres do seu lugar, estava muito confuso
para falar. Gentilmente ele pegou seu guardanapo e a ofereceu ao
Arcebispo João, mas ele, com um resmungo, o deixou cair; o Pe.
Mitrophan, quem obviamente desfrutava da cena, deu-me uma cotovelada
piscando os olhos. Eu não sabia o que fazer, tossi e me fiz de
desentendido. A demonstração era bastante assombrosa porque o Arcebispo
João olhava fixamente à mulher maquiada. Logo a mulher suspirou e deixou
de cochichar. O show tinha terminado. O Arcebispo João tomou seu
guardanapo e se dirigiu ao banheiro, deixando a porta aberta. Ele lavou
sua barba e voltou para seu lugar para terminar o jantar. O Bispo Savva,
absorto com a lição que o Arcebispo tinha dado à mulher, permaneceu
desconcertado enquanto que o Pe. Mitrophan murmurava que a mulher tinha
compreendido o significado.
Pois foi necessário criar tal espetáculo para ensinar à mulher que não
se dedicasse a modas mundanas que resultavam tão ridículas como derrubar
sopa sobre a barba. Compreendi a atitude e francamente gostei como ele
ensinou sem palavras.
Outra vez, estava servindo na igreja quando o Arcebispo João apontou
para a minha gravata. Não compreendi. Então um jovem me retirou do
altar, indicando para que eu tirasse a gravata, pois o Arcebispo não
permitia gravatas no altar. Observei então que nenhum dos subdiáconos a
usavam. Posteriormente entendi a razão: a gravata é um laço pendente que
representa à morte e o altar representa o paraíso e a vida. Anos mais
tarde, o Pe. Serafim e eu seguimos este costume com nossos coroinhas em
Platina.
O Arcebispo João nunca falava no altar. Se algo estava mal, ele dava um
estalo com a língua em sinal de correção, e continuava até que tudo
fosse corrigido.
Muitas vezes escutei críticas porque o Arcebispo caminhava descalço, o
qual eu mesmo vi em várias oportunidades. Normalmente o acusavam de
estar descalço no altar. Para mim isto não era motivo de tanto
escândalo. Um dia durante a liturgia matinal eu estava por acaso em São
Francisco para a comemoração de São Josafá de Belgorod, um santo de
minha devoção que tinha sido chefe do grupo de jovens do Arcebispo João
em Xangai. Já que estava na cidade decidi ir ao Lar São Tikhon. Eu sabia
que o Pe. Leonid Upshinsky faria os ofícios religiosos ao menos que
estivesse o Arcebispo João, neste caso o Pe. Leonid cantaria no coro.
Quando entrei a liturgia estava a ponto de começar. Fomos sozinho nós
três. O Arcebispo João no altar, o Pe. Leonid cantando e eu servindo
como coroinha. O Bispo deu-me sua bênção no momento de colocar o
sticharion e começou o ofício. Eu estava concentrado na oração, mas ao
mesmo tempo tinha medo de cometer algum engano no altar. De repente
notei que o Arcebispo estava descalço e repentinamente nesse instante me
veio à mente que nesse dia se comemorava o profeta Moisés, que teve que
tirar as sandálias quando estave no lugar sagrado. Eu tinha postos meus
sapatos no altar, um lugar sagrado. Ali me dei conta que são os que
levam sapatos ao lugares sagrados demonstram insensibilidade, e não ao
contrário, como a maioria pensa. Lembrança que me fez começar a sentir
um calor muito forte em meus pés, quando pedi a Deus que me perdoasse
por minha falta de tino.
Essa liturgia foi impossível de entender. O Arcebispo João quase
resmungando durante todo o serviço, o qual me parecia natural posto que
Moisés tinha tido um problema para falar também. O serviço foi curto e
terminou logo, mas para mim, devido a sua profundidade, parecia como uma
espiada à eternidade. Não havia ninguém na igreja exceto nós e os anjos.
Freqüentemente desejo agora poder rezar e chorar como o fiz sem nenhuma
vergonha naquela manhã. Se cometi algum engano ninguém notou, estávamos
tão concentrados na cerimônia como se estivéssemos em território
sagrado. Quando escuto a alguém falar da "esquisitice" do Arcebispo João
descalço no altar, suspiro com nostalgia em lembrança dessa bela
liturgia e da indescritível paz de sentir-se em outro mundo.
Também criticavam muito o Arcebispo por ele chegar tarde à igreja, isto
ocorria porque ele se atrasava visitando o doentes e rezando junto de
seus leitos. Ele também era reprovado por ser obstinado com a disciplina
espiritual. Mas o julgamento mais grave vinha dos jovens bispos que não
toleravam seus "excessos".
A Sra. Shakhmatova viu tudo isso, como mulher posta por Deus para
atender as necessidades deste homem sobrenatural, que trabalhava com seu
corpo terrestre para fazer o bem aos que sofrem. Seu conhecimento dos
desejos do Arcebispo lhe outorgavam uma visão profunda deste príncipe da
Igreja que exercia uma espiritualidade inspirando e chamando às pessoas
a um reino superior. Durante minhas inesquecíveis visitas, a senhora
Shakhmatova pôde me infundir amor por este grande ser humano, um homem
com um coração capaz de abraçar centenas de necessitados para fortalecer
suas consciências com a realidade de um Deus vivo.
Depois do meu show de slides no Lar Tikhon, dirigi-me ao hall do subsolo
onde muitos jovens estavam reuinidos. Os Arcebispos Tikhon e João
estavam presentes como também o futuro Bispo Nectário. Vi o Arcebispo
João sorrindo pelas tolas brincadeiras que eu fazia com os adolescentes.
No final da conversa, o idoso Arcebispo Tikhon, muito curvado,
agradeceu-me de coração. O Arcebispo João sorria dizendo: "Necessitamos
de mais conversa como estas." Logo adicionou: "Vêem novamente nos
visitar", e murmurou algo que não pude entender. Eu agradeci a todos
sentindo que pertencia a esse lugar. E fui a Califórnia com o propósito
de voltar novamente.