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Por Vladimir Moss
Tradução de Rafael Resende Daher

Na cidade de Gatchina, umas trinta milhas de Petrogrado, vivia antes da revolução a freira Maria, no mundo Lídia Alexandrovna Lilyanova. Em sua juventude, antes da revolução de 1917, Matushka Maria passou a sofrer de Parkinson após uma encefalia (inflamação do cérebro). Todo o lado esquerdo de seu corpo ficou paralisado, e seu rosto ficou anêmico, parecido com uma máscara. Ela conseguia falar, mas com a boca meio-fechada, entre os dentes, pronunciando as palavras de maneira lenta e monótona. Era inválida e sempre precisava de ajuda e cuidados.
Um pequeno toque já causava-lhe dor. Normalmente, esta doença causa
mudanças psicológicas profundas (irritabilidade, uma mania de repetir
perguntas estereotipadas, egoísmo exagerado, manifestações de
sensibilidade, etc.), e em conseqüência disso os pacientes
freqüentemente acabam em hospitais psiquiátricos. Mas a Madre Maria não
apenas não se degenerou psicologicamente, como também revelou
características extraordinárias de personalidade e demonstrou
características não tão comuns em tais pacientes: tornou-se calma,
humilde, submissa, esforçada, concentrada em si mesma. Tornou-se firme
na oração constante, carregava sua difícil condição sem o menor
resmungo. Como uma recompensa por esta humildade e paciência, o Senhor
lhe enviou um dom: o de consolar os que sofriam. Pessoas completamente
desconhecidas, quando estavam tristes, angustiadas, desencorajadas e
depressivas, começaram a visitá-la em busca de consolo. E todos que
buscavam o seu consolo sentiam a eliminação da angústia, diminuição da
tristeza, medos acalmados, fim da depressão e da falta de esperança.
Notícias desta extraordinária freira começaram a se espalhar
gradualmente além dos limites da cidade de Gatchina.
Matushka Maria vivia com sua irmã solteira, Julia Alexandrovna, e seu
irmão, Vladimir Alexandrovich, primeiro no centro da cidade perto da
Catedral de São Pedro e São Paulo, e depois em uma pequena casa de
madeira no subúrbio. Não era conhecida
apenas pelos habitantes de Gatchina, mas também pelos habitantes de
Petrogrado. Assim, durante a sua tonsura, estavam presentes muitos
bispos, padres e diáconos que chegaram de São Petersburgo (ela recebeu a
schema imediatamente após a tonsura).
Dois círculos foram formados ao redor da Matushka Maria - um maior, que
a ajudava nas várias tarefas da casa, e um menor que cantava
principalmente os moliebens. Neste estavam seis meninas entre 13 e 14.
Elas eram lideradas pelo Pe. João Smolin, que cantava junto com elas ao
lado da matushka, visitava os doentes e enterrava os mortos. Quando o
Pe. João morreu em 1927, seu lugar foi ocupado pelo diácono, Pe. Daniel.
Em Março de 1917, Ivan Mikhailovich Andreyevsky visitou a matushka.
Enquanto aguardava ser recebido, ele examinou as várias fotografias na
sala de recepção e relatou duas: uma do Metropolita Benjamim de
Petrogrado e a outra do Metropolita José de Petrogrado. Nesta foto, o
Metropolita José escreveu uma tocante dedicatória à Matushka Maria,
citando uma grande seleção de seus trabalhos por amor ao Pai, enquanto O
Metropolita Benjamim escreveu brevemente: "À muito respeitada sofredora
Matushka Maria, que, entre tanto sofredores, também tem me consolado, um
pecador...".
Ivan Mikhailovich foi um grande afortunado por estar presente na
manifestação dos milagres da cura de almas sofredoras. Um jovem que
estava muito desapontado após a prisão e exílio de seu pai espiritual,
deixou a Matushka com um alegre sorriso, e resolveu aceitar a ordenação
a diácono. Uma jovem que estava deprimida tornou-se radiantemente
alegre, e na mesma hora resolveu virar freira. Um senhor de idade que
sofria profundamente após a morte de seu filho, deixou a Matushka
otimista e encorajado. Uma jovem senhora que a procurou em lágrimas saiu
calma e confiante.
Quando Ivan Mikhailovich foi conhecê-la, ele disse que estava com uma
depressão terrível que o atacava freqüentemente, por várias semanas, e
ele não encontrava maneiras para se livrar dela. "A depressão é uma cruz
espiritual" ela disse a ele "ela é enviada para ajudar os penitentes que
não sabem como se arrepender, isto é, quem após se arrepender cai
novamente nos mesmos pecados anteriores... E apenas dois remédios podem
tratar este sofrimento que às vezes é muito dificultoso para a alma. A
pessoa também deve se arrepender e buscar os frutos do arrependimento;
ou então carregar esta cruz espiritual, esta depressão, com humildade,
servidão, paciência e grande agradecimento ao Senhor, lembrando que
carregar esta cruz é tido diante do Senhor como um fruto do
arrependimento... E apesar de tudo, que grande consolação é realizada
deste seu desencorajamento que é o fruto desconhecido do arrependimento,
uma autopunição inconsciente pela ausência dos frutos que são
exigidos... Pois este pensamento leva a pessoa à contrição, e esta
depressão vai gradualmente derretendo e os verdadeiros frutos do
arrependimento serão concebidos..."
Estas palavras da Matushka foi como se alguém tivesse feito uma cirurgia
literalmente na alma de Ivan Mikhailovich e removido seu tumor
espiritual... E ele saiu um outro homem.
Na noite de 8 de Fevereiro de 1930, muitos monges e fiéis foram presos
por todo o país. Muitas freiras de Gatchina também foram presas,
inclusive a Matushka Maria e sua irmã. Ela foi acusada de propaganda
contra-revolucionária e de participação em organização
contra-revolucionária, segundo os parágrafos 10 e 11 do Artigo 58 do
Código Penal Soviético. Seu irmão também foi preso. A "organização" era
composta por apenas duas pessoas. E a "propaganda" contra o comunismo
era o seu dom de consolar os sofredores.
Todos que estavam presentes durante a prisão, descreveram uma cena de
deboche e violência cruel contra a sofredora paciente que estava
paralisada e incapaz de qualquer movimento físico.
O crime "político-religioso" da Matushka Maria foi aumentado por sua
recusa em reconhecer o Metropolita Sérgio após a sua famosa declaração
de 1927, que levou a Igreja Russa ao cisma. Ela contou a seu filho
espiritual que "não há graça e nem justiça (nas igrejas sergianistas),
desde de quando eles se separaram da Ortodoxia e se venderam às
autoridades".
A pobre sofredora foi pega pelos braços, que foram torcidos por detrás
de suas costas, e depois foi arrastada pelo chão de sua cama até o
caminhão por dois chekistas... Balançando seu corpo muito sofredor e
paralisado, os chekistas jogaram-na no caminhão para levá-la até
Leningrado, onde permaneceu por dois meses até falecer. Os compassivos
veneradores da Matushka Maria começaram a levar presentes modestos na
prisão. Eles foram aceitos por um mês. E então, certa vez, não aceitaram
os pacotes e disseram:
"Ela morreu no hospital."
(Pacientes indefesos como estes eram normalmente assassinados.)
Não se sabe como enterraram o corpo da matushka no cemitério de
Smolensk. Seu túmulo é visitado por muitas pessoas, que fazem panikhidas
e oram diante dele. Ela morreu no dia 5 de Abril de 1930.
O irmão da Matuskha, Vladimir Alexandrovich, um frágil, pequeno e
refinado cavalheiro, que depois recebeu os visitantes em
auto-sacrifício, foi levado para longe em outro automóvel, o chamado
"corvo negro", uma limusine preta usada especialmente para transportar
as vítimas de prisões feitas na calada da noite. Após nove meses de
investigação, ele foi condenado a cinco anos de prisão em um campo de
concentração na Sibéria. Sua irmã, Julia Alexandrovna, também foi
condenada ao exílio, e ficou exilada por dez anos. Seus amigos a
visitavam e levavam comida. Não se sabe como ela morreu.
(Sources: I.M. Andreyevsky, Russia's Catacomb Saints,
Platina, Ca.: St. Herman of Alaska Brotherhood, 1982, chapter 5; Anna
Alexeyevna Yepanchina, in Vosvrashcheniye, N 3, 1995 and Pravoslavnaya
Rus', N 9 (1558), May 1/14, 1996, p. 12)