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Tradução de Pedro Ravazzano
Pouco é o que se conhece a respeito de como vivenciou a hierarquia ortodoxa com o desenvolvimento do Movimento Reformista iniciado por Martinho Lutero, e como foram os contatos entre ambas confissões durante os primeiros anos da Reforma; é por isso que é nossa intenção lançar um pouco de luz sobre este estranho capítulo da História da Igreja.
À medida que o clima religioso alemão ia reaquecendo pelas idéias radicais de um jovem sacerdote agustino chamado Martinho Lutero, foram transcendendo os limites da a Alemanha, o Patriarca de Constantinopla, Josafá II (1555-1565), começou a interessar-se pelo que estava acontecendo nessa região, pelo qual enviou o diácono Demetrios Muzos à cidade de Wittemberg, para que em sua qualidade de emissário patriarcal, pudesse brindar a Constantinopla informação fidedigna de primeira mão a respeito das novas doutrinas e de seu verdadeiro impacto religioso e político dentro do Mundo Ocidental. Alguns meses mais tarde, o diácono Demetrios, retornou a Constantinopla trazendo uma cópia traduzida ao grego da “Confissão de Augsburgo”, a qual ia acompanhada por uma carta que o Patriarca Josafá II jamais se incomodou em responder.
Os luteranos não se desanimaram ante o pétreo silêncio patriarcal a respeito de sua Confissão de Fé, já que pressionados pela perseguição exercida pelos católicos romanos, é fácil adivinhar que procurariam uma aliança estratégica com o Patriarcado de Constantinopla, que à maturação, não sentia grande simpatia pelo Papa de Roma. Alguns luteranos foram um pouco mas explícitos em seu desejo de unir-se contra o Papado, e é precisamente dentro deste contexto que os conhecidos teólogos da Universidade da Tubinga, Jacobo Andrés e Martinho Cursius, tentaram uma união com o Patriarcado Ecumênico através de uma missiva em 1573 que não obteve resposta, pelo qual se enviou uma segunda carta em 1574 em que o Patriarca Jeremias II respondeu aos teólogos protestantes a respeito das diferenças doutrinais profundas que encontrava em seus escritos, por isso os teólogos de Tubinga trabalharam arduamente em tratar de dar um pincelada a mais sobre a dita ortodoxia da Confissão de Fé do Augsburgo a fim de fazê-la mais digerível ao velho Patriarca.
Em Maio de 1576, Jeremías II, escreveu uma carta onde refutava ponto por ponto a Confissão de Fé luterana, ao que os protestantes responderam enviando um Manual de Teologia Luterana ao patriarca, por isso este um pouco cansado do jogo elaborou um segundo texto em que com uma claridade singular, embora com muita caridade, refutou a doutrina luterana; mas embora soe algo estranho, os luteranos voltaram a insistir a respeito da ortodoxia de sua confissão, por isso o patriarca se viu obrigado a redigir uma terceira refutação dos ensinos do Martinho Lutero, dando por finalizado o tema.
Embora o intento luterano não tenha tido êxito, paradoxalmente, o calvinismo, que é uma doutrina ainda mas radicalizada que o próprio luteranismo, teve um êxito bastante maior em infiltrar-se dentro dos muros da própria residência do Patriarcado Bizantino, onde o inescrupuloso Patriarca CIRILO LUKARIS, atuou como uma sorte de Cavalo da Troia, certamente, com ajuda das Potências Protestantes do Ocidente
O Patriarca Lukaris, foi um homem bastante culto, formado à altura de suas ambições no Ocidente, concretamente nas cidades italianas de Veneza e Pádua, ali tomou contato com a doutrina calvinista, a qual abraçou com grande entusiasmo. Este curioso líder ortodoxo, evidentemente tinha grandes dotes de diplomático, já que sendo ainda jovem, assessorou ao Príncipe da Lituânia na criação de uma aliança entre protestantes e ortodoxos contra os católicos latinos e grego-católicos (uniatas) da vizinha Polônia. Em 1602, o bem-sucedido Lukaris, assume como Patriarca de Alexandria à morte do Patriarca Melecios, e 10 anos mais tarde, em 1612, consegue entronizar-se pela primeira vez como Patriarca de Constantinopla, este original personagem ocuparia 7 vezes o Trono Patriarcal, o que reflete que foi bastante resistido por uns, mas solidamente apoiado por outros, até acabar assassinado em 20 de Junho de 1638.
Cirilo Lukaris, escreveu obras não muito ortodoxas, como seu tristemente célebre “Confessio Fidei”, o qual constava de 18 artigos e 4 respostas de inspiração nitidamente calvinista. Esta obra foi anatemizada por numerosos Patriarcas, Metropolitas e teólogos ortodoxos, sejam eslavos ou gregos, ao longo de toda a segunda metade do século XVII, até varrer toda influência daquele nefasto Patriarca dentro da Igreja Ortodoxa.
Cabe destacar que naqueles anos também houve dentro da ortodoxia, certa influência da contra-reforma católica, tal é o caso do famoso teólogo eslavo Pedro Moghila, Metropolita de Kiev, que em oposição a Lukaris, elaborou uma Confissão de Fé e um catecismo no ano 1645, seguindo os esquemas próprios dos escritos tridentinos, embora rechaçando sem ambivalências, como é lógico, o Filioque e o primado Pontifício. A Confissão de Dositeo de Jerusalém, que também atacou com dureza o intento calvinizante do Patriarca Lukaris, enquadra-se também dentro do estilo dos escritos católicos da contra-reforma influenciados pelo Concílio do Trento, embora conservando a pureza da fé ortodoxa.