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Tradução de Pedro Ravazzano
Governo do patriarca Thikón
Poucos dias depois da eleição do patriarca, subiam ao poder os bolcheviques. Sua partida era, por princípio, contrário a toda religião; e seu proceder não se podia atribuir tão somente aos enganos cometidos pela Igreja tzarista, mas sim o justificava com motivos tomados, nem tanto da vida da Igreja russa, quanto das Igrejas ocidentais. Para os novos senhores, a religião representava um resquício da era capitalista, que deveria ser superada pelo comunismo. A religião era para eles essencialmente reacionária, e inimiga do socialismo; e estavam, portanto, persuadidos da necessidade de suprimi-la. Havia unicamente divergências no modo de levá-lo a cabo. Do primeiro momento, começaram as medidas contra a Igreja.
Desde 15 de novembro de 1917, tão somente dez dias depois da eleição de Thikón, ficavam abolidos todos os privilégios confessionais; e em 24 de dezembro a religião tornara-se completamente expulsa da escola. Em 23 de janeiro de 1918 saía o decreto de separação absoluta entre Igreja e Estado; e desde 2 de fevereiro se abolia toda prestação estatal em favor dela. A Constituição de Lênin de 5 de fevereiro confirmava todos estes decretos, e previa, além disso, o confisco de todo o patrimônio eclesiástico, já que ao privar às comunidades eclesiásticas de sua personalidade jurídica, desaparecia também seu sujeito de propriedade. A Constituição falava, na verdade, de liberdade de consciência e de culto, mas entendida tão somente da liberação do indivíduo da pretensão alegada pela Igreja de ser ela a única possuidora da verdade. De fato, em janeiro de 1919 ficava confiscada toda a propriedade da Igreja. Ao mesmo tempo começaram a ser suprimidos os conventos, de uma vez que começavam os primeiros processos contra eclesiásticos, muitos dos quais tinham que ser fuzilados, ou ao menos deportados.
Thikón reagiu com energia, e em janeiro de 1918 publicou uma carta pastoral sobre a situação criada, acusando decididamente o proceder do governo bolchevique. Como conseqüência do confisco dos bens eclesiásticos, lançava decreto de excomunhão contra todos seus mentores. No princípio, as autoridades bolcheviques nada tentaram contra ele; não era o tempo de criar novas dificuldades com os fiéis, enquanto perdurava a guerra civil. Nela, o patriarca se manteve neutro, e a mesma postura exigiu de todo seu clero.
O clero ficava em uma situação verdadeiramente precária. Os sacerdotes não eram considerados nem sequer como operários; não recebiam cartões de abastecimentos, careciam de toda possibilidade para ganhar a vida, e seus filhos não podiam seguir os cursos de estudos. Possivelmente a medida mais radical e perniciosa foi à proibição de todo ensino religioso até a idade dos 18 anos. Em 1922 surgiam novas dificuldades e complicações entre a Igreja e o Estado. O patriarca Thikón foi detido e encarcerado. Começava o primeiro ataque geral contra a Igreja russa, levado adiante com as medidas mais violentas e radicais. Por outro lado, a detenção do patriarca trouxe consigo um cisma dentro da mesma Igreja cisma que se aproveitaria o mesmo governo como de uma arma em sua luta contra a religião. Em fevereiro de 1922 saía a ordem de expropriação dos cálices sagrados, sob o pretexto de que eram necessários para ajudar aos famintos e aos pobres. O patriarca exigiu a seus sacerdotes e ao povo que fizessem uma maior resistência a este espólio. O governo respondeu prendendo muitos sacerdotes e bispos. Foram justiçados, como primeira medida, o Metropolita Benjamim de São Petersburgo, o Metropolita de Kiev, Vladimir, e o cônego católico Budkiewicz, mais de um milhão de sacerdotes foram afastados de seus campos de ação. O conflito se agravava pela atitude hostil que adotavam os prelados emigrados no estrangeiro. Já veremos como os emigrados reunidos em Karlovtsy se pronunciavam em favor da restauração da monarquia. A notícia chegava a Rússia na primavera de 1922.
O governo, por sua parte, respondeu com uma campanha ativa contra a Igreja. Embora o patriarca se inibia nesta atitude antigovernamental dos prelados na diáspora, e tinha condenado inclusive, com carta de 5 de maio, essa atividade política dos prelados de Karlovtsy ordenando sua dissolução; entretanto, quatro dias depois dessa carta, era ele mesmo detido. Este fato conduziu a que saíssem à superfície todas as divergências da Igreja, dando origem ao cisma. O mesmo clero estava descontente do governo eclesiástico levado a cabo por seus bispos, escolhidos dentre as filas da vida monacal. Assim, alguns elementos radicais, de acordo com os mesmos bolcheviques, aproveitaram-se desta confusão, e decidiram fundar por sua conta uma "Igreja viva", enfrentado a patriarcal, que julgavam eles como morta. A nova Igreja deveria ser para frente a única legítima. E o caso foi que muitos homens de reta intenção vieram a lhes secundar em seus projetos.
Explicaremos aqui o desenvolvimento destes eventos Em 14 de maio, um grupo de sacerdotes descontentes, comandados por Alexamdre Wedensky, publicava um manifesto no diário bolchevique Izvestia, em que se acusava à direção eclesiástica de contra revolucionária, e pedia ao governo faculdade para poder reunir-se em concílio. Em diversas ocasiões visitaram o patriarca preso, lhe exigindo que abdicasse. Este se opôs decididamente, mas nomeou substituto dele, enquanto perdurasse seu encarceramento, o bispo Agatângelo de Yaroslav, e encarregava aos sacerdotes que fizessem cargo das atas sinodais para as entregar ao bispo Agatângelo quando chegasse a Moscou. Eles afirmaram que tinham sido investidos eles mesmos da direção da Igreja, proclamando-se como "suprema administração eclesiástica". Assim nascia a chamada "Igreja viva".
Em 29 de maio se reunia uma pequena assembléia constituinte, que não apresentava, nem muito menos, um organismo uniforme, composta dos grupos seguintes: a "Igreja viva", capitaneada pelo sacerdote Krasnitsky; a "Velha Igreja apostólica", sob Wedensky; a "Igreja do renascimento", com o bispo Antonino, e a "Igreja livre dos operários". Por sua parte, o governo promulgava um decreto, com data 10 de agosto, em virtude do qual tão somente se reconheceriam as associações registradas; a única que se inscreveu foi à chamada "Igreja viva". Os bispos que se opuseram a estas medidas foram privados de seus cargos, e detidos. Em dezembro do mesmo ano 1922 lançava o patriarca Thikón a excomunhão contra todos os seguidores da "suprema administração eclesiástica". Por sua parte, a "Igreja viva", apoiada decididamente pelo governo, pôde reunir um concílio em maio de 1923, que declarava deposto o patriarca. Ao mesmo tempo, introduzia na vida da Igreja umas novas medidas radicais, como o matrimônio dos bispos e as segundas núpcias dos sacerdotes viúvos.(nota: idéias similares as do Patriarca Ecumênico Meletios Metaxakis). Esta nova Igreja se inclinava decididamente a favor do governo bolchevique.
Pouco tempo depois deste concílio, ficava posto em liberdade o patriarca, que, durante o tempo de sua reclusão, tinha mudado radicalmente sua postura em relação ao governo. Apresentou-lhe suas desculpas por sua passada atividade hostil, e prometia abster-se dela no futuro, rompendo, além disso, toda classe de relações com os adversários do governo. Assim a Igreja russa abandonava sua luta contra o regime, reconhecendo-o de direito, e tratando de chegar a um "modus vivendi" com ele, ficando novamente pregueada dentro do âmbito religioso.
Esta liberação do patriarca pôs fim ao primeiro ataque contra a Igreja. Thikón, que reconhecia a legitimidade do governo bolchevique, mostrou-se intransigente contra os dissidentes da "Igreja viva", declarada cismática. O que foi suficiente para que muitos fiéis voltassem para seio da Igreja patriarcal. A "Igreja viva" suavizou muito das suas anteriores pretensões à medida que ia aumentando as defecções dentro de suas filas, não ficando nelas mais que o grupo que seguia a Wedensky. Assim, começou a chamar-se Igreja sinodal por sua forma de governo sinodal, em oposição ao patriarcal. Todas as tentativas de reconciliação entre as duas Igrejas, fracassaram. Por isso foi lamentar que no ano 1924 fora reconhecida juridicamente pelo patriarca ecumênico de constantinopla. Os bolcheviques a apoiaram no princípio, acreditando ser um meio eficaz para a desagregação da mesma Igreja, enquanto à Igreja patriarcal lhe negava todo apoio e ainda reconhecimento.
Thikón morria em 8 de abril de 1925. O governo proibiu que se nomeasse um sucessor. Mas em previsão de futuras complicações, o concílio de 1917 tinha concedido ao patriarca a faculdade de nomear um sucessor em caso de necessidade, e Thikón, em seu testamento de 7 de janeiro de 1925, tinha designado para o caso, os seguintes, por sua ordem: o arcebispo de Khazan, Cirilo, o de Yaroslav, Agatángelo, e o de Krutsky, Pedro, os dois primeiros não estavam em condições de assumir o cargo, por isso os direitos passavam ao de Krutsky, que, quão mesmo Thikón, declarava sua fidelidade ao governo. Mas em dezembro do mesmo ano 1925 era detido e deportado. Em previsão, já tinha escolhido ele outros três candidatos: o primeiro deles o arcebispo de Novgorod, Sergio. Assumiu efetivamente a direção da Igreja pouco depois da detenção de Pedro, apesar da oposição de alguns bispos apoiados pelo governo contra Sérgio.
O locum tenens do patriarcado: Sérgio de Novgorod
Sérgio trabalhou com todo zelo para obter do governo o reconhecimento da Igreja patriarcal. Este exigia que se renunciasse ao princípio monárquico, e se excluísse da Igreja russa a todo o clero residente no estrangeiro. Ante sua negativa, foi detido em 13 de dezembro de 1926, e com ele todos os bispos que tivessem que substitui-lo. A rogos de uma delegação operária, ficava em liberdade a fins de março de 1927. Em 20 de maio do mesmo 1927, tanto o arcebispo Sérgio como o sínodo temporalmente agregado a ele, eram reconhecidos, e inscritos no registro civil. O reconhecimento teve que se conseguir em troca de grandes concessões. Para adiante, chegava-se a pregar até um determinado patriotismo soviético. Em 1930 declarava inclusive Sérgio que na Rússia não havia nenhuma classe de perseguição religiosa, declaração que produziu grande surpresa não só na Rússia, mas também fora dela também. Alguns bispos se negaram a submeter-se a suas exigências políticas, e foram despostos de seus cargos; presos e exilados. Com isso devia aumentar a confusão em todos os ânimos. Viu-se que Sergio se entregou por completo nas mãos dos soviéticos, enquanto, por outra lado, o governo defendia o arcebispo de seus inimigo, aumentando assim cada vez mais a discórdia dentro da Igreja. Mais adiante, a maioria dos bispos se reconciliariam com ele.
Esta atitude pró-soviética do arcebispo Sérgio conseguiu para a Igreja russa uma breve era de paz. Esta situação não duraria muito tempo; muito pouco depois começaria uma nova perseguição que poria em claro o fato de que o governo soviético, no fundo, não perseguia a Igreja por sua atitude política, mas sim por ódio contra a religião, já que se declarava um governo ateu. Voltaram a fechar os templos, 1.440 em 1929; e voltaram a empreender julgamentos contra numerosos sacerdotes, muitos dos quais terminavam no fuzilamento. Outros muitos sofreram a deportação aos campos siberianos. Em abril de 1929 se promulgava um decreto que resumia as anteriores disposições, as fazendo mais duras ainda. O clero tinha que limitar sua ação a só o exercício do culto, ficando proibida toda outra atividade, como a do ensino, ou a de diversas atividades sociais. Ficavam assim mesmo proibidas todas as associações religiosas. Nesta e nas anteriores perseguições religiosas, pereceram, segundo estatísticas dignas de fé, até 128 bispos, e 25.000 sacerdotes. Outros muitos estavam encarcerados em diversas regiões da Rússia.
Vimos como esta Igreja, constituída em Igreja sinodal, e patrocinada pelo governo comunista, tinha conseguido obter o reconhecimento inclusive do patriarca de Constantinopla. Sob a direção do metropolita Alejandro Wedensky, chegou a ter uma importância considerável, e é possível que em um momento determinado agrupasse inclusive à maioria do povo russo. Era, certamente, uma grande ameaça para a Igreja patriarcal. Em parte, devia sua aceitação ao feito de que conservava as tradições eclesiásticas de Pedro o Grande, que tinha tido, durante dois séculos, um Santo Sínodo à frente da Igreja. Os soviéticos a apoiavam, pensando assim lutar com mais probabilidades de êxito contra o patriarca Thikón. Por isso, lhe concedia inclusive, ao tempo que lhe tinha negado à Igreja patriarcal, a abrir um instituto teológico em Lêningrado (a antiga São Petersburgo), e uma academia eclesiástica em Moscou. E começou a publicar sua própria revista, O mensageiro do Santo Sínodo da Igreja ortodoxa russa.
No concílio celebrado em 1925 podiam felicitar-se de seus insuspeitados progressos: De 9.939 Igrejas, com 11.057 sacerdotes e 176 bispos que tinham a fins de 1924, tinham passado, em menos de um ano, a 16.000 Igrejas, 17.000 sacerdotes e 200 bispos. Era o apogeu da Igreja dissidente. Mas depois, começaria a ir perdendo prestígio. Os fiéis se inclinavam ao partido do patriarca legítimo. Estava governada pelo chamado sínodo de Moscou, composto de 18 bispos, de sacerdotes e leigos. Sua jurisdição se estendia de modo imediato a 57 dioceses, agrupadas em 7 metropolias; outras 8 províncias, com 62 dioceses, observavam uma certa autonomia, embora dependendo em princípio da Igreja viva. Finalmente, quando o governo soviético decidiu reconhecer juridicamente a Igreja patriarcal, marcava a ruína definitiva desta outra Igreja cismática sinodal. Seu chefe, o metropolita Wedensky, teve que reconhecer sua rebeldia, e tão somente seria admitido nas filas do clero como simples sacerdote. Outros bispos e fiéis foram submetendo-se pouco a pouco à Igreja patriarcal.
Nova inteligência entre Igreja e governo soviético
Para fins de 1932, e depois de um estado de perseguição que tinha começado em 1917, a Igreja russa voltava a gozar de um pequeno espaço de tranqüilidade. Já em março de 1930 se suspendeu a clausura dos edifícios de culto, e desde 1931 pôde o patriarcado publicar seu próprio boletim eclesiástico, que cessaria em 1936. Em abril de 1934 os Metropolita e os membros do sínodo concediam a Sérgio o título de metropolita de Moscou e de Kolomna. Em 1935 ficava dissolvido o sínodo, que deveria ser substituído por reuniões regulares dos bispos. Em 1936 saía a nova Constituição stalinista, com reconhecimento de diversos privilégios que se negaram aos sacerdotes anteriormente, como o direito eleitoral ativo e passivo. Também se reconhecia ao sacerdote como operário, com todos seus privilégios, mas com a condição de que renunciasse a sua atividade sacerdotal. Por outro lado, continuava a propaganda antirreligiosa, ditada no decreto persecutório do ano 1929. Cabe destacar que Josef Stalin em sua juventude foi seminarista da Igreja Ortodoxa Georgiana
Para fins de 1936 morreu o Metropolita Pedro, administrador do patriarcado, Sérgio se converteu em seu sucessor legítimo, pois era o único que podia empossar do cargo entre os designados ao lugar do falecido. Desde 1 de janeiro de 1937, Sérgio era já comemorado na liturgia como locum tenens do patriarcado.
Em 1937 se fez um censo oficial da Igreja ortodoxa russa, e apareceu uma grande percentagem dos que se declaravam crentes, não obstante as repetidas pressões das autoridades comunistas. O governo soviético não se atreveu a fazer público o resultado do censo; em troca, decidiu tomar novas medidas repressivas contra a Igreja. Era o terceiro e mais terrível ataque desencadeado contra ela. Foram numerosos os sacerdotes fuzilados ou deportados, tão somente por sua posição de sacerdotes, e por sua atividade estritamente religiosa. As acusações formuladas contra eles eram as seguintes: que possuíam enormes riquezas, que levavam uma vida dissoluta, e que desenvolviam atividades de espionagem a favor da Alemanha, ou preparavam diversos atos de sabotagem. Voltaram a fechar muitos templos, e impuseram às comunidades cristãs pessadas pressões. Assim de 1937 a 1939, quando, de improviso, cessava a perseguição. O que tinha passado?
Podia falar-se já de uma nova política soviética religiosa. A imprensa começava a suavizar os termos de opressão, divulgando a idéia de que tanto Stalin como Lênin, não consideravam como absolutamente necessária a luta contra a religião, em contradição manifesta contra toda sua atuação anterior. Inclusive chegaram a ditar severos castigos contra os ateus que ofendessem os sentimentos religiosos de outros. Ainda houve um broto persecutório depois de assinar o pacto de não agressão entre o Hitler e Stalin. Declarava-se que os soviéticos e os nazistas tinham, ambos, um inimigo comum, especialmente os sacerdotes católicos. A declaração se fazia depois que as tropas nazistas tinham invadido a Polônia. Mas esta atitude mudaria radicalmente uma vez estalada a guerra russo-alemã. Após, os soviéticos se constituíram em defensores da mesma religião. Em 21 de agosto de 1941,a rádio Moscou fazia uma chamada a todos os crentes dos territórios ocupados pelos alemães para que se levantassem contra eles em defesa de sua liberdade religiosa. A mesma religião era reconhecida pelas autoridades soviéticas como parte do patriotismo nacional do povo russo. E isto tinha muito de certo.
Desde 1943 se manifestou ainda com mais claridade a mudança de atitude operado no governo russo. Já se dedicava a favorecer e ajudar à Igreja patriarcal por ter compreendido como é muito mais fácil dominar a uma Igreja centralizada, que não a um grande número de grupos dispersos. Desde 1944 começava a publicar-se novamente o boletim mensal do patriarcado. Ainda mais, o governo concedia a correspondente permissão para proceder à eleição de um novo patriarca, eleição que não realizada, por imposição do mesmo governo, da morte de Thikón. Foi designado o mesmo arcebispo de Moscou, Sérgio, eleito por um sínodo de 17 bispos, em 8 de setembro de 1943.
A sua morte, em 2 de fevereiro de 1945, um concílio nacional, ao que assistiram também os patriarcas de Alexandria, Antioquia e Geórgia, assim como também representantes de outras Igrejas autocéfalas ortodoxas, escolhia-se como sucessor o arcebispo Alexis, de Lêningrado.
Alexis (Simanski) era membro de uma família aristocrática moscovita. Graduou-se na faculdade de direito da Universidade de Moscou e na academia teológica dessa mesma cidade. Converteu-se em monge durante o segundo ano que passou na dita academia, e foi consagrado bispo em Í913. Quando em 1927 o metropolita Sérgio publicou sua famosa declaração de lealdade ao regime soviético, o arcebispo Alexis imediatamente se uniu ao sínodo do Sérgio, e se tornou o mais ativo dos colaboradores na luta contra aqueles outros bispos que se negavam a submeter-se à nova corrente. Em 1943, como membro da delegação que tomou contato com o Stalin, teve parte ativa na restauração do patriarcado, acontecendo o mesmo a Sérgio, como já havemos dito, depois de sua morte, em 1945. O novo patriarca enviou muitas mensagens de lealdade aos chefes de Estado. Chamou o Stalin "sábio líder eleito e famoso pela Providência divina para dirigir a mãe terra pelo caminho da prosperidade e da glória". Com um espírito similar, emitiu exortações e mensagens em ocasião de vários aniversários soviéticos, e enviou quantidade de telegramas de felicitação. Da mesma forma, Stalin disse em outra ocasião que "nossa Santa Igreja tem nele um fiel protetor".
Por outro lado, as autoridades soviéticas tinham que demonstrar em várias ocasiões sua atitude benévola para com o patriarca. Antes da segunda guerra mundial, a secretaria do patriarcado residia em uma casa muito modesta dos subúrbios de Moscou; em 1943 o patriarcado recebia os enormes edifícios da antiga embaixada alemã. Em 11 de outubro de 1945 recebeu a medalha "pela defesa de Lêningrado", e em 16 de agosto de 1946 a "Ordem da Bandeira Vermelha", que habitualmente se outorga por serviços emprestados ao comunismo. Em 31 de agosto recebia a medalha "por serviços distinguidos durante a guerra patriótica de 1941-1945". E o dia de seu septuagésimo quinto aniversário, em 1952, de novo seria recompensado com a "Ordem da Bandeira Vermelha", por seus serviços patrióticos. Tal era o novo e original patriarca eleito de Moscou.
A nova constituição da Igreja russa tinha que tratar de adaptar sua própria legislação eclesiástica a dos soviéticos. Abriram-se algumas escolas de teologia para a formação de sacerdotes, e alguns monastérios de homens como o famoso das Cavernas de Kiev. Contudo, o governo proibiu nessas escolas teológicas o ensino de matérias que revestissem um interesse geral, como a filosofia, a história, etc., porque queria que o sacerdote não tivesse em condições de exercer nenhuma influência intelectual na sociedade. Numerosos templos ficaram restituídos ao culto. Com isso, buscava-se assegurar uma colaboração total, e eficaz, de todo o povo russo no esforço comum da guerra contra os nazistas, invasores do chão pátrio. E em 1948 pôde celebrar-se em Moscou um sínodo inter-ortodoxo, para comemorar o quinto centenário da autocefalía da Igreja Ortodoxa Russa.
A mudança se devia a razões meramente políticas. Recordamos a necessidade de polarizar os esforços de todos na guerra, isso, sem contar com as exigências da política externa, que exigia essa troca no governo soviético no plano de sua estratégia religiosa. O governo russo tinha que se alinhar necessariamente, para levar adiante a guerra, no campo dos aliados democráticos; e no interior, tinha necessidade da Igreja e de sua influência para reforçar em todos a unidade nacional. Uma mudança, certamente, de emergência e de conveniência. Pode assegurar-se que o governo soviético não sofreu uma mudança fundamental em sua política religiosa, nem que tenha concedido uma verdadeira liberdade religiosa. Na Rússia continuaram por várias décadas em todo seu vigor o idealismo ateu, que pode ser considerado como a doutrina oficial da época soviética. Mas em vez de combater diretamente à Igreja, preferiu dominá-la por completo, para convertê-la em instrumento condescendente de sua política. Essa parece ser a valoração mais comum, ao menos no ocidente, das relações passadas entre o Estado Soviético e a Igreja Ortodoxa dentro da Rússia.
A realidade era, que apesar de todas as declarações de alguns líderes eclesiásticos a favor do regime soviético, a Rússia comunista permanecia ainda muito longe da verdadeira liberdade religiosa. Nenhum só dos decretos restritivos ou persecutórios, foi derrogado oficialmente, seguindo proibida o ensino da religião aos meninos, tanto nas escolas como dentro dos mesmos templos, até o governo de Gorbachov.